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Eduardo Paz Ferreira 10 de Dezembro de 2012 às 23:30

Crise, dizem eles

Olha-se para as propostas consubstanciadas no Memorando da Troika (...) e rapidamente se percebe que, por mais extraordinário que isso possa parecer, o que lá se encontra é um projecto de reforço do modelo que provocou a crise

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Crise, dizem eles. Crise, dizemos nós, distraídos e iludidos. Os dias que vivemos não são já, no entanto, tempo de crise, mas tempo de um pântano que ficou, no rescaldo da crise. E quanto mais rapidamente percebermos isto e mais depressa abandonarmos a ideia e as expressões associadas à crise, melhor poderemos contribuir para a clarificação das nossas opções e da adequação ou inadequação das propostas que nos acenam como o caminho da salvação. 


A crise - ensinam-nos as ciências sociais – corresponde a um conceito dinâmico que se traduz na ocorrência de um acontecimento ou série de acontecimentos, não esperados, que criam incerteza, ameaçam aos objectivos fundamentais da organização onde ocorrem e obrigam, por isso, a uma substituição de um sistema que já não funciona.

A crise traduz-se numa realidade dinâmica e transitória que se não pode confundir com uma situação dilatada no tempo. A crise que insistimos em referenciar é realmente a crise de 2007, tornada dramaticamente presente pelos acontecimentos que se seguiram à falência do Lehman Brothers.

Aí sim, deparamo-nos com eventos que, ainda que com alguma dificuldade, se pode aceitar que eram inesperados. Pelo menos assim o testemunhou Alan Greespan, perante o Congresso, esquecendo os vários gestores de fundos e economistas, como Nouriel Roubini que, claramente, tinham antecipado o cenário que se veio a verificar.

A velocidade com que a crise se propagou, passando do sistema financeiro que esteve na sua origem para a economia real, as hesitações que a rodearam, bem como as dúvidas que se semearam sobre a bondade da doutrina económica estabelecida, criaram efectivamente um elevado grau de incerteza e conduziram à percepção de que estava ameaçada toda a organização económica e social e se tornava necessário encontrar uma alternativa de substituição para um sistema que não funcionava.

Sabemos hoje que a resposta pública, consubstanciada na injecção de liquidez por parte dos Bancos Centrais e na definição e execução de políticas sociais e de investimento ambiciosas, impediram que a economia mundial colapsasse. Sabemos, também, que houve, na altura, quem pensasse que a crise deveria ter ido até mais fundo, para tornar evidente e socialmente aceitável uma alternativa real.

Esse era, no entanto, um caminho difícil de aceitar: demasiado sofrimento, demasiados custos, demasiados dramas humanos. Aquilo que se não sabia é que o sofrimento, os custos e os dramas se iriam prolongar no tempo e rapidamente seriam reduzidos a meros dados estatísticos de folhas de Excel, manejadas por dirigentes sem paixão nem compaixão.

A crise – quisemos acreditar – poderia ter fornecido um momento de renascimento e esperança. Recuperou-se uma bela ideia de Einstein – "... A crise é a melhor bênção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progresso…" –, relembrou-se Schumpeter e a concepção da destruição criativa, em que o novo – mais activo e dinâmico – toma o lugar do velho ultrapassado e incapaz de responder.

Nada disso ocorreu. Estancados os aspectos mais violentos da crise, seguros os seus responsáveis de que a cada crime nem sempre corresponde um castigo, entendido que o medo paralisava as pessoas ou as encaminhava para caminhos autolesivos, passou-se a actuar como se não fosse preciso mudar nada de essencial. A sabedoria de Lampedusa – é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma – encontrava-se suficientemente democratizada para que, mesmo quem não tivesse a elegância e a fina compreensão da humanidade do Príncipe de Falconeri, dela lançasse mão.

Os alertas para que as origens da crise se deveriam encontrar em raízes mais fundas do que a especulação financeira, comandante decidido de um modelo de sociedade que trazia em si os germes da destruição, de nada serviram. E, no entanto, eles foram formulados por pessoas fora do tão prezado "arco da governação" – é certo -, mas também por insuspeitos moderados e vastos sectores da Igreja Católica.

O "Inside Job" destruiu qualquer ilusão. Habituados a aceitar a importância do sector financeiro e irritados pela insistência em certos slogans mais ou menos primários, tivemos dificuldade em perceber que não acreditávamos em bruxas, "pero que las hay, las hay", como os espanhóis vieram a compreender de forma especialmente impressiva.

Bento XVI atribuiu a crise ao afastamento das pessoas em relação a Deus. Talvez essa fórmula sintética nos desperte para o inequívoco distanciamento dos valores de decência, solidariedade, comunhão de vidas e compaixão.

O reencontro com o Paraíso Perdido (católico ou laico) é, pois, a tarefa prioritária dos tempos que correm. E para que as águas se abram no nosso caminho, a fim de que as possamos atravessar a salvo, é fundamental reconhecer que os tempos que vivemos são já tempos posteriores à crise, tempos de derrota e de humilhação, de falência e desespero. Necessário é, também, admitir que o reencontro com a boa sociedade com que a Humanidade sonha há tantos séculos não se fará com a reposição da ordem anterior a 2008, que abandonara esse sonho, confundido com o consumismo desenfreado e o sucesso individual.

A desregulação financeira, o poder excessivo das instituições de crédito e dos fundos especulativos, a globalização sem regras, a integração europeia incompleta e mal desenhada, a secundarização do direito, a subordinação da justiça à eficiência, a desigualdade na distribuição do rendimento, a drástica contenção da acção pública, conseguida através de privatizações substanciais, de um regime comunitário cego de proibição de ajudas do Estado e de substituição da decisão política por assépticos mecanismos regulatórios, conduziram à crise.

Olha-se para as propostas consubstanciadas no Memorando da Troika (de resto, desautorizadas por um dos seus membros) e rapidamente se percebe que, por mais extraordinário que isso possa parecer, o que lá se encontra é um projecto de reforço do modelo que provocou a crise, que nos levou ao actual Estado, do qual queremos sair.

A resposta da Troika não é a única. Barack Obama apresenta um caminho diverso; Dilma Rouseff, estrela maior da recente cimeira ibero-americana, um outro ainda, enquanto recorda à Europa o mal que políticas como as que estão a ser praticadas causaram ao desenvolvimento da América Latina e nos recrimina por prolongarmos uma recessão mundial. Mas quem quer, afinal, saber de um Presidente que pode ser parado por um grupo de hábeis parlamentares que não se preocupam com a natureza não democrática dos seus procedimentos, ou de uma dirigente de um destes países de terceiro-mundo, que nem sequer nos apercebemos que, entretanto, se tornou na sexta potência económica mundial?

"The Best is yet to come", proclamou, pleno de energia, confiança e fé no futuro, o Presidente dos Estados Unidos. Na Europa de Angela Merkel, Durão Barroso ou Von Rompoy é difícil não pensar que "the worst is yet to come".

Presidente do IDEFF, Professor Catedrático da FDL

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