Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
José Maria Brandão de Brito - Economista 17 de Dezembro de 2012 às 23:30

Crise e remédios: dois pesos... (1)

O problema europeu não é só a soma de um conjunto de problemas parciais, simplisticamente assumidos, dividido por explicações diferentes: os gregos embusteiros, os irlandeses azarados, os portugueses preguiçosos, os italianos desorganizados, os espanhóis e os franceses megalómanos.

A crise portuguesa é estrutural. É económica antes de ser financeira. A vertente financeira da crise, tenho-o afirmado repetidamente, é uma consequência da propensão dos portugueses para o pequeno risco e para o curto prazo, das nossas idiossincrasias, das nossas incapacidades e da nossa falta de ambição, da generalizada falta de sentido organizativo, da gritante incapacidade para gerar uma estratégia nacional compatível com o desígnio europeu. 


Portugal deixou-se acomodar num modelo fácil, que ia sendo corrigido com estratagemas de política orçamental e cambial e que ia dando para viver, com uma competitividade frouxa, explorando sectores não transaccionáveis e de baixo valor acrescentado. Como dizem os americanos, "quando a maré baixa é que se vê quem está vestido", no nosso caso, a maré baixou quando os países do leste europeu (os peco) irromperam pela UE e nós verificámos que estávamos quase nus. É tempo de virar a página e de enfrentar corajosamente o futuro.

A fórmula adoptada para debelar a crise pode vir, por exaustão, a conduzir a uma solução: mas ao fim de décadas de sofrimento social, de humilhação nacional, de um País desgovernado a trabalhar em câmara lenta, do desperdício de gerações a quem se frustrou a esperança. Porque essa fórmula está errada. É fruto de um falso ponto de partida e de um preconceito ideológico: o de que o modelo económico português e, em geral o dos países da periferia da Europa, são incapazes de gerar um equilíbrio sustentável.

Não há um modelo periférico europeu – da Grécia, da Irlanda, de Portugal, de Espanha, da Itália – que faliu porque os modelos são todos profundamente diferentes. Um tratamento semelhante, praticamente igual para todos, só vem agravar os males e mostrar como a ideia de punição e o calculismo deviam estar fora deste quadro de actuação. Aceitá-lo, sem tergiversar, torna os seus executantes tão responsáveis perante a História como aqueles que foram deixando criar o problema, quaisquer que tenham sido as razões invocadas.

Existe uma filosofia global com especial expressão em alguns países mais industrializados, que procuraram tirar proveito da enorme oportunidade decorrente da integração da China e da Índia na economia global, através da aposta em sectores transaccionáveis, de elevado valor acrescentado. A adequação deste modelo a todas as economias que mantiveram um nível de industrialização satisfatória mostra que não existe um problema nem um modelo específico na periferia europeia que alegadamente teria falido. O que existe é uma certa forma, errada em vários segmentos, de fazer política económica e social. O que a Alemanha unificada e, entre outros, os países escandinavos compreenderam a tempo foi a necessidade de se reconverter. No virar do século, face à nova economia global onde as velhas regras da concorrência vigentes durante a "guerra fria" estavam ultrapassadas, essas economias fizeram antecipadamente a sua reforma, distribuindo os custos por todos os Estados-membros especialmente aqueles que não se conseguiram regenerar para fazerem frente aos ventos da globalização. É por isso, que tendo de ser as soluções diferenciáveis, elas têm de ser encontradas no seio da UE. É por isso, que a Europa é auto-resgatável porque, em boa verdade, não deve nada a ninguém fora das suas fronteiras.

Aliás como está consagrado nos Tratados não há, nem pode haver, estados de primeira e de segunda. As soluções impostas aos países intervencionados são uma desnecessária demonstração de força de quem por agora manda na UE. O problema europeu não é só a soma de um conjunto de problemas parciais, simplisticamente assumidos, dividido por explicações diferentes: os gregos embusteiros, os irlandeses azarados, os portugueses preguiçosos, os italianos desorganizados, os espanhóis e os franceses megalómanos. E o que acontecerá quando o problema chegar de novo à Alemanha?

Economista. Professor do ISEG/UTL
Assina esta coluna quinzenalmente à terça-feira

Ver comentários
Mais artigos de Opinião
Ver mais
Outras Notícias
Publicidade
C•Studio