Luisa Ribeiro Lopes
Luisa Ribeiro Lopes 29 de abril de 2020 às 10:10

Digitalização: de Lisboa para Bruxelas

É bom lembrar que mais de 50% dos cidadãos portugueses possuem apenas competências básicas no plano digital e que cerca de 20% nunca usaram sequer a internet.

Em conjunto, estamos a enfrentar uma das situações mais exigentes e incertas da história recente. O período de emergência que os países europeus, entre os quais Portugal, atravessam em resultado da covid-19 coloca inevitavelmente a saúde pública e, consequentemente, a sustentabilidade económica mundial num patamar incontestável e politicamente urgente, recentrando a agenda europeia na resposta aos efeitos financeiros, económicos e sociais da pandemia.

 

Ao nível institucional, a causa imediata desta crise é, sem surpresa, o deslize para segundo plano de desafios estratégicos do presente e do futuro. Tudo isto, pelo menos à primeira vista, pode significar que avanços em domínios tão relevantes como o digital e outros são suscetíveis de ser travados ou simplesmente adiados.

 

Não é verdade! Nunca, como agora, o digital foi tão prioritário para travar os efeitos da situação de emergência global que enfrentamos.

 

Um dos poucos consensos que hoje existem é que a Europa e Portugal precisam de se adaptar ao impacto das tecnologias disruptivas na vida das pessoas. E nesta equação, a transição digital é fundamental.

 

Veja-se nesse sentido a recém-publicada Resolução do Conselho de Ministros n.º 17/2020, que aprova os Programas +CO3SO Conhecimento e +CO3SO Digital, nos quais se prevê a importância de estimular o desenvolvimento científico e tecnológico que promova a modernização das atividades empresariais, designadamente através do apoio à implementação de tecnologias digitais emergentes (inteligência artificial, internet das coisas e bases de dados de grande dimensão, sistemas robóticos, ou sensorização remota), bem como de capacitação de recursos humanos para as competências digitais.

 

Importa lembrar que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, definiu como uma das seis prioridades fundamentais do seu mandato "Preparar a Europa para a Era Digital". Não foi preciso esperar muito para que a Comissão apresentasse um roteiro que consta da comunicação, com o título "Shaping Europe’s Digital Future", para a adoção de medidas conducentes à mobilização de recursos ao longo de toda a cadeia de valor e criação dos incentivos adequados para acelerar a transição digital, sem perder de vista o corolário do seu propósito: uma tecnologia ao serviço das pessoas, uma economia digital justa, inclusiva e competitiva e uma sociedade aberta, democrática e sustentável.

 

A elevação do propósito e a abrangência da sua ação fazem deste roteiro uma oportunidade singular para a Europa se posicionar como referência internacional no plano digital, objetivo que não se compadece com recuos nem hesitações.

 

Portugal deve posicionar-se na linha da frente dos países que dão voz a este impulso, não deixando esmorecer o ânimo e a ambição da União Europeia neste plano. Desde logo, pela circunstância de Portugal assumir no primeiro semestre de 2021 a presidência da União Europeia, mas também pelo exemplo que tem revelado na criação de políticas e projetos de digitalização eficientes.

 

O reconhecimento europeu da especificidade portuguesa do Simplex é já uma realidade. Mas os mais recentes sinais daquele exemplo são a apresentação do programa INCoDe.2030 e o lançamento do plano Portugal Digital, no passado mês de fevereiro, focado na capacitação e inclusão digital dos cidadãos, na transformação digital do tecido empresarial e, por último, na digitalização do Estado. Estes instrumentos não são um fim em sim mesmo; devem servir os interesses da sociedade no seu conjunto.

 

Em todos os campos e a cada passo, encontra-se, contudo, uma realidade incontornável: a economia portuguesa está longe de estar completamente integrada e são dezenas as regiões e os setores que se mantêm alheios às principais dinâmicas tecnológicas. É bom lembrar que mais de 50% dos cidadãos portugueses possuem apenas competências básicas no plano digital e que cerca de 20% nunca usaram sequer a internet.

 

A superação destes dois indicadores não dispensa ninguém e gera duas respostas urgentes: capacitação de competências digitais e desenvolvimento do acesso dos cidadãos aos meios digitais.

 

Da nossa parte, e sob o lema "digitalizar é incluir", o .PT tem desenvolvido e apoiado numerosos projetos destinados a capacitar os portugueses de todas as faixas etárias para o mundo digital. Nestes tempos de desafio e incerteza estamos fortemente empenhados em dar o nosso contributo para que os impactos sejam menores. No final, o fiel da balança vai ter de pender para um lado, o lado que já espreita, e que temos sido testemunhas diariamente no .PT. Os portugueses não baixaram os braços e estão a recorrer ao digital para (re)lançar os seus negócios.

 

Ninguém pode antecipar quando esta pandemia e os seus efeitos acabarão. Mas uma coisa sabemos: a digitalização estará do lado da recuperação, da superação e do sucesso. Somos mais .pt. Ninguém ficará para trás.

 

Presidente do Conselho Diretivo do .PT (associação que gere o domínio de topo nacional, o .pt)

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