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Dinheiro fresco

É estratégico alocar dinheiro e injetar ambição na indústria nacional, que guarda a experiência de saber fazer o que a Europa deslocalizou há muito. Há dinheiro comunitário, finalmente.

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Uma ideia simples para um desígnio nacional: regenerar a indústria portuguesa com dinheiro europeu e capital de risco. Ora leia:

A indústria portuguesa vale 12% do PIB e gera cerca de 1,4 milhões de empregos, o que representa quase um terço da população ativa. O alojamento e a restauração, somados, representam cerca de 8% do PIB e dão emprego a pouco mais de 320 mil portugueses. Imagine-se o que será se a indústria nacional não sobreviver aos impactos da covid-19.

Há tempos um economista britânico, cabelo à escovinha, explicou aos países industrializados que deveriam reter uma ideia simples: o ritmo das inovações tecnológicas só produz verdadeira competitividade quando a curva de aprendizagem na produção desses produtos amadurece. O que Alwyn Young quis dizer, num conceito que ficou conhecido por “Learning by doing”, é que não basta inventar – é preciso consolidar a forma de produzir na experiência de quem produz: os trabalhadores. A economia só cresce, concluiu, se preservar trabalhadores experientes em setores estratégicos, como a manufatura especializada. Se a indústria portuguesa soçobra ao vírus, perde-se quase um terço da experiência do Portugal ativo. E agora?

A Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), que publica estudos muito competentes sobre o que deve ser feito setor a setor, ajustou o discurso ao vírus e diz assim agora, certeira: é preciso dinheiro fresco para resgatar a indústria nacional. Sem ele, fecham-se portas. Em 2018, com os meus sócios Nuno Fernandes Thomaz e Pedro Araújo e Sá, criámos o fundo de capital de risco CoRe Restart. Demos-lhe esse nome porque já era então evidente que Portugal precisava de capital de risco dedicado às suas PME industriais – e que esse capital deveria ser investido no “restart” da indústria existente com uma proposta de valor cristalina: além de dinheiro fresco, o Fundo reestrutura o sobre-endividamento destas empresas, aporta gestão profissional e traz escala a um setor atomizado, associando grupos industriais experientes e de capital nacional como coinvestidores. A tração foi tal que, de imediato, os chamados investidores institucionais se juntaram ao projeto – pela primeira vez em Portugal fundos de pensões e seguradoras investiam em capital de risco. Concluímos esta semana mais um investimento: a Sousacamp, maior produtor ibérico de cogumelos frescos, numa injeção de dinheiro fresco de sete milhões e meio e com a Sugal (o maior produtor europeu de concentrado de tomate) como coinvestidor. O Fundo detém hoje participações maioritárias em indústrias nacionais que somam mais de 850 trabalhadores, com idades médias acima dos 35 anos. Se não retivermos experiência...

Falta dar escala a este movimento. É estratégico alocar dinheiro e injetar ambição na indústria nacional, que guarda a experiência de saber fazer o que a Europa deslocalizou há muito. Há dinheiro comunitário, finalmente. Merkel e Macron acordaram há dias libertar 500 mil milhões também para reforçar a resiliência industrial da Europa. Há instrumentos em Portugal – o Governo nem precisa de dar trabalho aos legisladores, está quase tudo feito. Há capital privado nacional no “private equity”, como o nome indica (em português, dizer capital de risco engana – é capital, ou equity de privados, que investem, arriscam, para regenerar empresas). Basta dar gás a estes privados, portanto, e um mandato claro: investir lado a lado na regeneração da indústria nacional, preservando o saber-fazer. Portugal, querendo, pode estar no coração do movimento de reindustrialização europeia. Simples demais? É sempre assim com os conceitos que funcionam.

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