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José Veiga Sarmento 29 de Junho de 2020 às 20:10

Disse economia ou finanças?

Nas circunstâncias em que nos encontramos é um suicídio continuar no exercício perpétuo de nos empatarmos uns aos outros, recorrendo a preconceitos, cartilhas gastas ou ilusões.

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Nem uma coisa nem outra. Hoje o tema é política. Portugal está num momento muito delicado da sua História. Corremos sérios riscos de insolvência, que nos podem vir a fazer desaguar num mundo falhado e mal frequentado. Mas, neste momento particular, o tema não é nem a economia nem as finanças cujo estado calamitoso excede infinitamente a nossa capacidade individual de agir. O futuro lá virá, e se nos vier a encontrar no seio de uma comunidade europeia civilizada, as soluções aparecerão, embora, para terem utilidade, dependam da existência de uma economia funcional.

Depois de ter falhado no ano passado a maioria absoluta e de ter decidido não reintroduzir as alianças anteriores, o PS parece agora inclinado a encontrar uma saída para a instabilidade surreal em que caiu, acossado pela alegria com que os restantes partidos alimentam as maiorias negativas. Ainda recentemente o PAN chamou a si a liderança na escolha do governador do Banco Central. Durante alguns dias, muitos pareceram concordar com os amigos dos animais, de que se estava perante um gravíssimo problema, não de direitos dos animais, mas de conflito de interesses na área da alta finança, que impunha a aprovação de uma lei para evitar a vergonha deste nefasto desenlace. Vergonha sim, mas vergonha partilhada por toda a oposição que não quis perder mais esta oportunidade irresponsável de mostrar que existe e que já se esqueceu dos efeitos do arranjinho da contagem de tempo dos professores.

Neste quadro é compreensível que o PS queira estabelecer alianças que lhe permitam evitar estes sobressaltos. Mas dramático é que o queira fazer recuperando a coligação anterior, num momento em que é urgente apelar às forças produtivas que encontrem formas de criar riqueza. Porque não são as tiradas moralizantes do BE, nem a postura do PC, que contribuem para o PIB e para os meios de suporte do Estado social. O problema, neste momento, não é a economia; o problema, agora, é que a política pode matar a economia. E esta é uma questão muito, muito séria.

Não sou dos que pensam que António Costa cometeu o pecado original ao suportar-se no BE e no PC para chegar ao poder. Pelo contrário, acho que isso permitiu mostrar a uma fracção da nossa sociedade – que se mantinha num purgatório político há 45 anos – o que é o exercício do poder, escola onde, quando existe bom senso, se apreende o sentido da responsabilidade. De facto, o Portugal democrático foi, até à “geringonça”, um exclusivo de três partidos que exerceram em permanência o poder. Esta sedimentação em circuito fechado cristalizou a realidade política portuguesa, abrindo espaço para perversões com efeitos colaterais. O que Costa fez, quando chamou para a mesa do poder os enjeitados da sociedade política, foi uma espécie de exorcismo que teve por efeito a desdramatização da linguagem partidária. Recorde-se que a alternativa que Costa tinha na altura era ou a oposição ou a subalternidade numa aliança muito marcada por uma direita de vincada ortodoxia liberal.

Estávamos a sair de um dos períodos mais traumáticos de que temos memória. Nos tempos da crise da dívida pública aceitámos, como inerentes e devidos, todos os sacrifícios que pudessem agradar aos deuses da troika. Foi um período que ficou marcado pela humilhação colectiva, pelo colossal aumento de impostos, pela venda das infra-estruturas estratégicas a potências estrangeiras e, salvo algumas excepções honrosas como a reforma do regime das rendas de habitação, pela incapacidade de produzir as reformas do sistema político, económico e da administração pública que, como sabemos, continuam por se realizar. António Costa optou, à saída das eleições de 2015, por uma independência com cedências pontuais ao populismo da extrema-esquerda. Limitação que não o impediu de apresentar, pela primeira vez em 50 anos, um superavit das contas públicas, sem crispação social. Como balanço, não é propriamente o que se pode designar de negativo. A experiência da “geringonça” levou-nos hoje, por outro lado, a um mundo onde ninguém questiona o direito à palavra de Mariana Mortágua – que pode falar e ser ouvida em silêncio – mesmo que não se concorde em absoluto com o que ela diz e que não se perceba como na prática se pode daí gerar a riqueza que ela reivindica dever ser distribuída.

Para recuperar a tranquilidade perdida, António Costa estará agora a cometer um daqueles erros que podem fazer mudar a História para pior. Portugal precisa neste momento, mais do que nunca, de se lançar ao trabalho e, para o fazer, não pode desvalorizar o facto de que o lucro pessoal é um instrumento essencial para esse movimento. Claro que com regras, com supervisão e respeito pelos outros, como as sociedades capitalistas actuais têm condições para assegurar. Sabe-se, é certo, que há outras opções de motivação mais de tipo “religioso”, onde se encontra por exemplo o imaginário onírico do BE ou a cartilha doutrinária do PC. Sabemos que esses não são caminhos que nos levam a um mundo melhor. Ao eleger a doutrina e eliminar o contributo das forças centrais, Portugal perde uma oportunidade, se calhar, irrepetível. Quis o acaso que o PS tenha hoje em Rui Rio a oportunidade de congregar forças que partilham os objectivos de que o país precisa. Desperdiçar oportunidades tem custos monumentais. Tivemos, recentemente, em Espanha, o Ciudadanos que, depois de ter atingido uma dimensão que lhe permitia ser uma força de mudança, optou por atirar o centro-esquerda reformista para os braços folclóricos e estéreis do Podemos. Rivera passou à história e Espanha caminha hoje, crispada pelos extremismos, para o abismo. O que se pode vir a passar em Portugal é semelhante, com o centro-esquerda a abandonar o centro-direita ao populismo extremista, e com isso continuaremos paralisados na luta ideológica estéril.

Portugal necessita, hoje, de medidas só possíveis de serem lançadas na base de uma plataforma central largamente maioritária e em que a clivagem esquerda-direita não seja o combustível que faz nascer a ilusão de movimento. Precisa, por isso, de um programa comum para o desenvolvimento económico sustentável, com base num acordo partidário para os próximos cinco ou 10 anos. Nas circunstâncias em que nos encontramos é um suicídio continuar no exercício perpétuo de nos empatarmos uns aos outros, recorrendo a preconceitos, cartilhas gastas ou ilusões. Ao dar o poder de arbitragem ao BE e ao PC – que são forças que não compreendem, nem querem compreender, o que é a economia – estamos a liquidar o futuro.

Merecemos melhor. 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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