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Manuel Caldeira Cabral 09 de Setembro de 2014 às 18:44

Draghi, Juncker, Merkel, Keynesianismo ou bom senso

Os resultados das políticas conservadoras são bem visíveis na estagnação do investimento. Entre 2011 e 2014, o investimento aumentou 20% nos EUA, e diminuiu 3% na Zona Euro.

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O discurso de Mario Draghi da passada semana marcou um ponto de viragem, não só por reforçar as posições sobre política monetária e afirmar um diferente entendimento do que é o papel do BCE, mas também pela defesa clara da necessidade da política monetária ser apoiada por uma política orçamental mais expansionista.

 

A referência de Mario Draghi à possibilidade de políticas de Quantitative Easing, ou à ideia explicitamente keynesiana de que se as políticas orçamentais não acompanharem a emissão monetária há risco de se cair na situação de armadilha de liquidez, seriam uma afronta à ortodoxia da austeridade inaceitável em 2010 ou 2011.

 

Hoje, são aplaudidas por muitos economistas dos mais diversos quadrantes e são muito bem vistas pelos mercados que reagiram muito positivamente às quebras de ortodoxia do presidente do BCE.

 

A posição de Mario Draghi surge em paralelo à proposta do novo presidente da Comissão Europeia, de relançamento do investimento, com um plano de 300 mil milhões de euros, e às posições assumidas pelo presidente francês e pelo primeiro ministro italiano, contra as políticas de austeridade, assumindo abertamente a defesa de políticas macroeconómicas de estímulo keynesiano.

 

Será que isto representa uma viragem ideológica na política da Zona Euro? E nesse caso, será que a chanceler alemã vai permitir esta mudança?

Respondendo à primeira pergunta eu penso que não há uma mudança ideológica. Há antes bom senso e abertura para olhar para o que a realidade e os dados mostram.

 

Em 2010 e 2011, dominou na Europa a ideia conservadora de que só apresentando rapidamente descidas de dívida e dos défices seria possível restaurar a confiança no euro.

 

Esta ideia era sustentada pelo conceito de risco moral, que defendia que só com uma punição forte e visível dos países com desvios se poderia dar um sinal claro aos mercados financeiros da seriedade das instituições europeias.

 

Acrescentavam-se ainda reformas estruturais centradas em políticas de rendimentos que diminuíssem os custos salariais como forma de aumentar a competitividade.

 

O castigo, a austeridade e as descidas salariais eram os instrumentos da recuperação da confiança que permitiriam evitar o contágio e obter um rápido relançamento da economia pelo investimento privado e pelas exportações.

 

Muitos alertaram para a insensibilidade social destas políticas e para o risco de políticas de austeridade simultâneas poderem prolongar a recessão e acentuar os riscos de contágio a novos países.

 

As dúvidas já existentes em 2010 e 2011 aconselhavam a uma linha mais moderada, com uma política monetária expansionista, uma actuação do BCE que reforçasse as garantias das dívidas soberanas e a solidez do sistema financeiro e uma coordenação das políticas orçamentais, que implicasse que países com importantes desequilíbrios, nos quais Portugal se encontrava, teriam de fazer ajustamentos, mas países com maior folga deveriam manter políticas moderadas, evitando o risco de prolongar a recessão.

 

Nessa altura a discussão era feita com uma base teórica, baseada na convicção de uma crise de procura agregada não podia ser vencida apenas com base em medidas do lado da oferta, e que os problemas da dívida e dos défices orçamentais seriam muito mais difíceis de corrigir num contexto recessivo que a prossecução simultânea de políticas de austeridade iria inevitavelmente criar.

 

Hoje, isso mudou. Existe evidência. Os resultados das políticas seguidas foram visíveis no contágio que não conseguiram evitar e na recessão que criaram em 2012 e 2013.

 

O contraste com a situação dos EUA foi-se acentuando. Os EUA cresceram perto de 2% ao ano desde 2010, enquanto a Zona Euro esteve em recessão em 2012 e 2013. Hoje, os EUA têm metade do desemprego da Zona Euro, e um PIB per capita 45% superior ao da Zona Euro (quando em 2011 era apenas 36% superior).

 

Os resultados das políticas conservadoras são bem visíveis na estagnação do investimento. Entre 2011 e  2014, o investimento aumentou 20% nos EUA, e diminuiu 3% na Zona Euro.

 

As políticas ortodoxas não conseguiram gerar a confiança que diziam que iam trazer, nem o crescimento que afirmavam que desta ia resultar.

 

Curiosamente o melhor resultado conseguido nos últimos anos - a descida do risco soberano - deveu-se não à ortodoxia, mas à coragem de Mario Draghi para a desafiar. Hoje é claro que a inversão de política pelo BCE em 2012, com Draghi a assumir uma posição contrária à doutrina conservadora,  foi o factor que mais contribuiu para reconquistar a confiança dos mercados financeiros.

 

Conclusão: não foi a ideologia que mudou, é a realidade que se está a impor. E a realidade pede moderação. Pede uma alteração de rumo. A política económica não pode ser baseada na subserviência aos mercados financeiros. Mas hoje são os próprios mercados financeiros a desmascarar os argumentos dos que defenderam o exagero de austeridade que se seguiu na Zona Euro, respondendo positivamente não a anúncios de mais austeridade, mas antes a discursos e posições que anunciam maior abertura à moderação da mesma. 

 

Responder à realidade não é uma questão ideológica é apenas uma questão de bom senso. E é o bom senso, aliado à situação de recessão e à necessidade de cooperação entre os estados da EU, que a situação da Ucrânia impõe, que acabará por fazer evoluir a própria posição da Alemanha.

 

Professor no departamento de Economia da Universidade do Minho

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