Sandie Costa
Sandie Costa 22 de maio de 2020 às 15:27

EBITDA(C): o impacto da pandemia nas contas das empresas

As dificuldades e oportunidades para as empresas e o facto de neste momento haver mais capital disponível para investir, em comparação a crises anteriores, fomentam o potencial para fusões e aquisições.

O EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortisation) é um indicador chave no universo empresarial por se considerar a melhor aproximação ao "cash flow" operacional e à capacidade do negócio gerar valor. É também uma das principais referências para: medir a evolução da atividade; definir rácios para avaliar a manutenção/alteração do nível de endividamento e formular o preço, no âmbito de fusões e aquisições.

 

A pandemia gerou rápidos e significativos impactos na atividade das empresas e, consequentemente, no EBITDA. Alguns desses impactos incluem a diminuição drástica da procura (nomeadamente no retalho e serviços que fecharam com a declaração do Estado de Emergência) e a redução da capacidade de produção (em indústrias ou serviços não passíveis de teletrabalho e/ou que viram a sua cadeia de abastecimento afetada). As empresas procuraram de imediato mitigar a redução de rendimentos com uma diminuição de custos no entanto, para além da rigidez nos custos, novas formas de trabalhar/ novas exigências sanitárias induziram aumentos com alguma expressividade. Também não serão despiciendos os gastos associados às muitas iniciativas de responsabilidade social, como a doação de produtos/ serviços à comunidade (restaurantes a oferecer refeições), a colocação de infra-estruturas à disposição (hotéis a albergar profissionais de saúde ou doentes em recuperação), a reorientação da produção (para álcool gel ou máscaras) ou a oferta de equipamentos (computadores para crianças).

 

Os múltiplos impactos da covid19 nas empresas resultaram assim na necessidade de apurar uma nova métrica, o EBITDAC: EBITDA "before Coronavirus".

 

Na publicação dos resultados do primeiro trimestre de 2020, muitas empresas divulgam os planos de contingência que implementaram, as medidas de apoio que adotaram e as alterações que anteciparam para se tornarem mais resilientes em cenários de crise. Algumas tentam também estimar o seu nível de EBITDAC, através da identificação, quantificação e ajustamento de gastos com medidas excecionais decorrentes da pandemia. O impacto dos rendimentos não gerados poderá no entanto não ser tão consensual nem tão fácil de mensurar: quem poderá garantir que, no período pós pandemia as tendências anteriores se manterão? Nalguns negócios, a disrupção criada pelo efeito Coronavírus pode ser tão significativa que os períodos anteriores a 2020 não serão uma base razoável para estimar resultados futuros e que a recorrência do EBITDA será posta em causa.

 

Há ainda outras dúvidas sobre como deverá ser tratado o impacto da pandemia no EBITDA.

 

Irão os bancos conceder moratórias ou renegociar com quem não cumpre os rácios de financiamentos baseados em EBITDA? Poderá ser calculado um EBITDAC para aferir estes "covenants"?

 

E em termos de transação? Será consensual que o EBITDA de 2020 é afetado por um período verdadeiramente extraordinário, mas… bastará isolar o período de pandemia? Até quando irá durar? Parece claro que os consumidores não retornarão de imediato aos seus anteriores padrões de consumo, mas será que voltarão alguma vez ao que eram ou teremos um "novo normal"? Todas estas questões carecem de ponderação e será necessário analisar os negócios com dados mais detalhados e atuais e incorporar uma maior componente de testes de hipótese, com base nos "leadings indicators" de cada indústria.

 

As dificuldades e oportunidades para as empresas e o facto de neste momento haver mais capital disponível para investir, em comparação a crises anteriores, fomentam o potencial para fusões e aquisições. Contudo, espera-se que as dificuldades atuais conduzam ao refinamento dos critérios de investimento, a um exercício de "due diligence" mais profundo e, em última análise, a uma descida dos múltiplos aplicados.

 

O EBITDAC será sempre um KPI transitório e havemos de voltar ao EBITDA (sem o "C"), mas será sem dúvida um EBITDA diferente, senão em valor, pelo menos na sua origem.

PwC Advisory Partner

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