João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 25 de abril de 2017 às 19:40

França: a litania dos fracassos

Jean-Marie Le Pen somou 5,5 milhões de votos, 18% dos sufrágios, na disputa contra Jacques Chirac na segunda volta das presidenciais em Maio de 2002, e Marine parte para o confronto com Emmanuel Macron contando com 7,8 milhões de apoiantes, 21% dos votantes - nisto se resume a degradação da Quinta República.

O segundo mandato de Chirac foi um fiasco, a presidência de Nicolas Sarkozy, lamentável, o quinquénio de François Hollande, deplorável, e, consequentemente, passados 15 anos sobre a derrota de Jean-Marie, metade do eleitorado apoiou candidatos contestários do sistema político, soberanistas e proteccionistas.

 

França em quebra de rendimentos e perda de estatuto, temente ao futuro, expressa-se de forma cada vez mais estridente nas votações por candidatos politicamente extremistas.

 

A outra face da moeda radical é a defesa de um estatismo regulatório apostado em proteger sectores com escassas ou nulas expectativas de promoção social e baixa capacidade competitiva ante a introdução de novas tecnologias, técnicas de gestão e concorrência estrangeira.

 

Estes deserdados são efeito, e simultaneamente uma das causas, da perda relativa de peso de França desde a década de 1970 em relação à Alemanha e Grã-Bretanha, acentuando-se a tendência neste século pelas disfunções do mercado laboral e da gestão empresarial, apesar da sofisticação de sectores de ponta como a indústria aeroespacial ou de armamento.

 

Uma carga fiscal excessiva, representando 55% do PIB, enquanto a dívida pública equivale a 96 %, ou um défice orçamental cronicamente acima dos 3% são alguns dos sintomas de um regime económico incapaz de continuar a assegurar prestações sociais elevadas (57% do orçamento, excluindo educação).

 

A celebrada "douceur de vivre" tem um contraponto no acentuar das assimetrias sociais e na alienação da grande maioria dos 7,3 milhões de descendentes de imigrantes (11% dos franceses, representando os actuais 5,9 milhões de imigrantes, menos de 9% da população).

 

Entre esta população jovem e urbana (47% com menos de 25 anos, enquanto a média nacional desta faixa etária se cifra nos 30% - dados INSEE de 2017) assinala-se no caso dos descendentes de magrebinos (o maior contingente - 31%, seguindo de italianos, portugueses e espanhóis, 29%) repúdio crescente pelos valores republicanos e comportamentos em violação das leis e interditos morais.

 

Ao clima de permanente tensão social e violência nos subúrbios acresce a incidência do jihadismo entre cerca de 6 milhões de muçulmanos, maioritariamente sunitas, a alimentar sucessivos atentados terroristas que justificam um estado de emergência em vigor desde Novembro de 2015.  

 

O repúdio pela frequente imoralidade de próceres políticos institucionais para proveito pessoal (caso de François Fillon, sua esposa e rebentos) fez-se sentir na primeira volta das presidenciais, sem afectar Marine que no Parlamento Europeu cultiva a tradição galesa de empregos fictícios para financiamento partidário.    

 

A recomposição da direita, repudiando o seu fracassado candidato, e possíveis cisões entre os socialistas, autonomizando alas sociais-democratas de facções anticapitalistas, vão dificultar a criação de maiorias de coligação estáveis na Assembleia Nacional nas votações de Junho.

 

A margem de vitória de Macron a 7 de Maio contará, também, para a sorte do partido centrista que intenta patrocinar, com todas as ambiguidades que o caracterizam.

 

Reforma constitucional é tema a que Macron é alheio; exemplo de equilibrismo político é a promessa do manifesto de candidatura de preservar a semana de 35 horas, deixando à negociação a nível empresarial as horas efectivas de laboração.

 

Macron teve sorte até agora, mas, dependente de acordos partidários numa assembleia e num senado onde não contará com maiorias a seu mando, será um Presidente sem margem política para empreender reformas de fundo.

 

As expectativas que Macron irá defraudar nada auguram de bom para a Quinta República, instituída em 1958 à imagem de Charles de Gaulle e que, agora, ameaça ruptura pela ascensão dos extremos.

 

Jornalista

pub

Marketing Automation certified by E-GOI