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José Luis Teixeira Gomes 20 de Outubro de 2014 às 20:00

Grande recessão - parte II?

A 19 de Setembro, cerca de oito minutos após a oferta pública inicial (IPO) do Alibaba, gigante chinês do "e-commerce", o S&P 500 chegou ao máximo histórico de 2019 pontos.

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Na Europa, a maior IPO de sempre marcava também uma das melhores marcas do EuroStoxx nos últimos cinco anos, atingindo os 3300 pontos. Porém, a situação em Outubro é bastante diferente com as principais bolsas europeias a caírem cerca de 10% desde finais de Setembro, com o FMI a rever em baixa das perspectivas de crescimento e indicadores da inflação demasiado baixos. Mas o que pode explicar uma mudança tão radical no sentimento do mercado?

 

Uma primeira hipótese seria alguma explicação conjuntural. De facto, seria possível que esta reacção se devesse a algum factor pontual como as informações sobre o sector do retalho e números de produção nos EUA, a crise no mercado grego (com possíveis rumores de que a Grécia quereria abandonar o programa de resgate) ou até a recente descida no preço do petróleo que poderia precipitar uma deflação generalizada. Por outro lado existem outros factores geopolíticos, exógenos à economia, como a ameaça do estado islâmico (ISIS) ou o recente surto de ébola, que também poderiam ter algum efeito. Contudo, na passada quinta-feira, após ter aberto a sessão a cair cerca de 1,5%, o S&P 500 fechou no verde com os comentários de James Bullard, presidente do FED de St. Louis, sugerindo que a Reserva Federal (FED) deveria reconsiderar o fim do programa de "quantitive easing" (QE). Assim, parece haver duas principais razões para o "sell off" pendente, a expectativa sobre a decisão do FED sobre o "tapering" e o risco de deflação associado. Mas será o mercado assim tão frágil?

 

Na verdade, tudo indica que a situação seja bastante delicada. Exemplo disso mesmo foi a reacção no VSTOXX, o "fear índex" europeu, que atingiu os 35 pontos, um máximo dos últimos dois anos. Com efeito, o que o mercado parece querer é que a política monetária dos últimos anos, o chamado QE, se mantenha nos EUA e que o BCE acelere as medidas de combate à inflação e de apoio à economia. No entanto, estas medidas parecem ser insustentáveis, especialmente nos EUA, e uma correcção do mercado será inevitável. Na Europa, pede-se uma resposta mais agressiva do BCE já que as medidas já implementadas pelo banco central, como a descida da taxa de juro de referência e o programa TLTRO (fraca procura), mostram ser insuficientes para estimular a economia.

 

Para Portugal, apesar de alguns sinais que seriam considerados encorajadores, - a descida do preço do petróleo ou a depreciação do euro face ao dólar - as fracas perspectivas de crescimento na Europa e o risco de deflação podem colocar em causa a recuperação económica do país no futuro próximo. O que a semana passada revelou foi a fragilidade desta situação, com o maior "re-rate" de "spreads", face aos títulos de dívida alemã a 10 anos (o único refúgio na Europa), desde a crise financeira, sendo Portugal um dos mais afectados. A narrativa do "bom aluno", e do cumprimento do programa da troika, parece não ser mais que isso mesmo, uma narrativa. Portugal, tal como a restante periferia, beneficiou da elevada procura de "yields" atractivas por parte dos investidores, o que naturalmente baixou o custo do financiamento da República Portuguesa.

 

No dia em que este artigo foi redigido, 17 de Outubro, o mercado parecia estar a recuperar na expectativa de que o discurso de Janet Yellen viesse dar sinais de confiança e de suporte à economia, fazendo prever um novo adiamento do fim do QE. No entanto, adiar o inevitável não será possível durante muito mais tempo. Resta-nos esperar que o esforço feito nos últimos anos não tenha sido em vão e que a economia portuguesa seja capaz de resistir à correcção dos mercados que se avizinha.

 

Membro do Nova Investment Club

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