Virgínia Trigo
Virgínia Trigo 21 de setembro de 2016 às 19:04

"Hello, teacher!"

Ainda não são oito da manhã e há mais de meia hora que o meu telefone não se cansa de emitir persistentes bips. "Hello, teacher!", consigo ler, vendo ao lado um emoji, um boneco com o coração aos saltos e um ramo de flores na mão direita.

O que será? O telefone está cheio de mensagens, todas a felicitarem-me pelo "meu" dia: que este feriado viva para sempre no seu espírito; obrigado pela ajuda nos meus anos mais difíceis; o feriado é apenas um dia no calendário e você está na sala de aulas todos os dias; um feriado só? É pouco, deviam dar-vos mais dinheiro e mais férias! Votos que vão diretamente ao coração e algumas vezes à carteira. Hoje é 10 de setembro, esclarece-me uma mensagem, o Dia do Professor na China.

 

Não há país onde o professor se sinta tão emocionalmente compensado como na China onde é sem dúvida a mais respeitada das profissões. O professor é considerado um "jardineiro da alma", alguém que se dedica a transmitir conhecimento de uma forma altruísta, um trabalho árduo que se estende muito além da sala de aula e que nenhum dinheiro poderá compensar. Ainda há dias, na luta por um táxi com um grupo de estudantes, o colega que me acompanhava argumentou "somos professores". Foi quanto bastou para que o táxi nos fosse cedido e a porta aberta e fechada para nosso conforto. Jamais me lembraria de invocar esse estatuto em Portugal e não creio que fosse uma boa ideia.

 

Há 31 anos que o 10 de setembro é celebrado como o Dia do Professor, mas a tradição é muito mais antiga. Já no tempo da dinastia Zhou, mais de mil anos antes de Cristo, os discípulos costumavam comemorar com cerimónias mais ou menos solenes o dia do aniversário dos seus professores. Mais tarde, o dia uniformizou-se e passou para 27 de agosto, a data de nascimento de Confúcio no calendário chinês (28 de setembro no nosso calendário) e foi em 1985 que se fixou em 10 de setembro para reabilitar o respeito pela profissão de professor após o período da revolução cultural. Neste dia, os alunos enviam mensagens, presentes, escrevem poesias, organizam festas, tudo em honra do seu professor. As celebrações são amplamente noticiadas e as redes sociais enchem-se de tributos ao professor, uma manifestação absolutamente genuína porque não se espera mais em troca do que aquilo que já se tem. Os alunos trocam entre si mensagens sobre a etiqueta do que pode ser considerado um bom presente para o professor: nunca dar coisas demasiado caras ou inúteis; se o presente for demasiado inovador, deve-se explicar como funciona; nunca perguntar ao professor qual o presente que quer pois isso pode constrangê-lo; dizer "fiz isto especialmente para si".

 

Entre as muitas caixas de chá e ramos de flores virtuais e reais que recebi, o melhor presente foi um e-mail de um endereço que ainda não reconheci: "Querida professora, já não se deve lembrar de mim. Fui seu aluno e a minha primeira impressão quando a vi foi: cheira bem! É que na altura não estávamos habituados a perfumes na China. Foi você quem me levou a conhecer o mundo e me deu coragem para olhar as estrelas. Por sua causa tenho hoje um bom emprego em Pequim e continuo a viajar muito para o estrangeiro. Ainda me lembro quando me disse que não há atalhos para o sucesso. Feliz Dia do Professor!" Com o coração apertado, pergunto-me se haverá um Dia do Professor em Portugal. Se há, ainda não dei por ele.

 

Professora no ISCTE Business School

 

Artigo escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico 

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