Rui Loureiro
Rui Loureiro 03 de junho de 2019 às 19:55

Indústria farmacêutica, um exemplo de emprego qualificado jovem para Portugal

Atualmente, o setor farmacêutico em Portugal gera um volume de negócios de cerca de mil milhões de euros anuais, emprega diretamente cerca de 7 mil profissionais (técnicos, investigadores, etc.) e é responsável por 2% das exportações do país.

O setor da Saúde tem vivido momentos conturbados e, por vezes, torna-se difícil acompanhar as más notícias que vão surgindo em catadupa nos escaparates mediáticos. Porém, este é um setor que lida com a vida e, por isso, muitas outras vezes somos agradavelmente surpreendidos com boas novas. Enquanto alguém que lida com o futuro talento do setor farmacêutico, foi com particular entusiasmo que, recentemente, li que "a taxa de desemprego entre os farmacêuticos é inferior à média nacional (4,4% vs 6,8%), (...) com mais de oito em cada dez profissionais a conseguirem emprego no máximo três meses após terminarem o curso"(1).

 

Sem dúvida, o futuro do setor farmacêutico assenta em grande medida na qualidade – e na disponibilidade – dos seus recursos humanos – em suma, no seu talento... muito do qual está hoje espalhado por toda a Europa (em especial no Reino Unido e na Alemanha). Esta é uma questão amplamente identificada e debatida há alguns anos pelos múltiplos especialistas em Saúde e que exige uma resposta inequívoca. É que, se é verdade que os anos da troika conduziram a fluxos de emigração qualificada sem precedentes no país, por outro lado, fenómenos como o Brexit e também o défice de talento óbvio e natural do país – isto é, educado e formado no país – deveriam ser motivo de reflexão e, acima de tudo, de ação urgente e continuada.

 

Atualmente, o setor farmacêutico em Portugal gera um volume de negócios de cerca de mil milhões de euros anuais, emprega diretamente cerca de 7 mil profissionais (técnicos, investigadores, etc.) e é responsável por 2% das exportações do país. Para além das condições ímpares do país (demográficas, geográficas, climáticas, etc.) que propiciam a expansão e internacionalização desta indústria, acredito que a aposta estruturada (e estruturante) do Estado em conjunto com os privados em políticas ativas de industrialização, Investigação & Desenvolvimento (I&D), algo que inclui a formação de recursos novos e a recuperação dos que se encontram espalhados pelo continente, permitiria atingir um crescimento de mais 50% até 2025.

 

Após meses de negociações no Reino Unido – tanto internamente como junto dos parceiros europeus – que não chegam a qualquer lado, a não ser que surja um trunfo à vigésima quinta hora, como a realização de um segundo referendo, a opção "hard Brexit" parece iminente. E, enquanto os demais países europeus tentam posicionar-se para conseguir atrair as empresas e os profissionais de saúde aí sedeados no pós-29 de março (ou outra data igualmente iminente!), os nossos responsáveis políticos necessitam de potenciar estas oportunidades que surgem amiúde neste nosso jardim à beira mar plantado.

 

Regressando ao início desta reflexão, enquanto profissional que, nos últimos anos, tem assistido e participado na criação e aperfeiçoamento do talento farmacêutico "made in Portugal", deixo a pergunta óbvia: quando abraçamos definitivamente as políticas integradas de médio e longo-prazo que uma indústria com estas potencialidades exige, uma política sustentável de criação e retenção do talento de um setor fortemente exportador e com um valor reputacional inestimável para o país?

 

Aqui ficam, desde já, algumas propostas: (i) O reconhecimento que o setor não é só um criador de despesa, é principalmente um criador de estabilidade social e desenvolvimento económico de produtos e serviços exportáveis. Logo, necessita de uma virtuosa dicotomia entre o Ministério da Economia e o Ministério da Saúde; (ii) Garantir que os potenciais criados nesta legislatura com elevada capacidade de exportação de valor "made in Portugal" não se perdem em meandros administrativos; e (iii) Ver o copo meio cheio no que se refere ao Brexit, aprendendo atempadamente com países como a Irlanda, a Holanda e a Bélgica.

 

(1)Fonte: Ordem dos Farmacêuticos (https://www.ordemfarmaceuticos.pt/pt/noticias/of-estuda-mercado-de-trabalho-farmaceutico/?fbclid=IwAR1a0C6d05jZ1pYai6EvxSTCy9bdpqcUpHfB6WpKi4Dtsp_7RYbsfQmefv0).

 

 Membro do Advisory Board, European Health Futures Forum

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