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Pedro Braz Teixeira pbteixeira3@gmail.com 05 de Dezembro de 2012 às 23:30

Jogos de soma variável

Imaginem-se em Portugal há 30 anos, em 1982, o que também deve ajudar a encarar o presente com algum optimismo. Na saúde, a esperança de vida era menor e a mortalidade infantil era muito superior à actual. Na educação, a escolarização do país era muito mais baixa.

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Há uma "ideia" com imensa circulação, que subjaz a muitas "análises", a de que a generalidade das relações económicas são jogos de soma nula. Ou seja, se alguns estão a perder, então existem algures outros que estão a ganhar e a ganhar exactamente o mesmo que os que estão a perder. Julgo que este preconceito tem raiz na ideologia marxista, da "exploração do homem pelo homem", e também provavelmente de algumas ideias religiosas muito mais antigas contra o lucro e o juro.


Na verdade, a relação económica básica, a troca voluntária, é um jogo de soma positiva, ambos ficam a ganhar com ela. Quando vamos comprar pão, ficamos contentes por trocar o nosso dinheiro por pão e o padeiro também fica satisfeito por trocar o pão por dinheiro.

Além disso, a história económica dos últimos 200 anos é dominada por jogos de soma positiva. Houve ganhos generalizados, que seriam impossíveis se os ganhos de uns fossem sempre à custa das perdas de outros.

Imaginem-se em Portugal há 30 anos, em 1982, o que também deve ajudar a encarar o presente com algum optimismo. Na saúde, a esperança de vida era menor e a mortalidade infantil era muito superior à actual. Na educação, a escolarização do país era muito mais baixa. Nos transportes, não havia sequer auto-estrada Lisboa-Porto e demorava-se um tempo absurdo a viajar.

Não havia um único hipermercado e praticamente nenhum dos centros comerciais actuais. Não havia canais de TV privados, nem TV por cabo, nem telemóveis, nem internet. Alguns dos bens que hoje estão acessíveis nem sequer poderiam ser comprados com os salários que vigoravam então.

Podemos não ser hoje mais felizes, mas em termos materiais não nos podemos queixar. O desenvolvimento económico, generalizado em quase todo o mundo (com a terrível excepção da África subsariana), baseia-se em jogos de soma positiva, de ganhos generalizados, mesmo nos casos em que não há uma distribuição equitativa destas melhorias.

Há também certamente jogos de soma nula, como as partilhas de heranças, onde existem os maiores conflitos e nem sempre os comportamentos mais nobres.

Finalmente, há jogos de soma negativa, em que o que uns ganham é menos do que o que os outros perdem. Existem os exemplos mais variados: uma empresa que se lança num projecto megalómano e vai à falência; um investimento público do tipo de um auto-estrada quase sem utentes. Neste caso houve alguns a beneficiar do investimento, mas o país como um todo perdeu.

Defendo a ideia de que o euro é um jogo de soma negativa. Quando se fizer o balanço global desta moeda irá verificar-se que os ganhos que proporcionou a uns se revelaram posteriormente muito inferiores. A Alemanha julgou que ganhava muito exportando para a Grécia, mas no final verá muito pouco desse dinheiro.

Por outro lado, falta conhecer ainda muitas das perdas que o euro vai ainda gerar.

Para finalizar, pedia só que nos poupassem a frases do tipo "a miséria não acaba porque dá lucro", que derivam apenas do tal preconceito de julgar que tudo é um jogo de soma nula. Mas quem é que lucra com a existência dos sem-abrigo?

Nota: As opiniões expressas no texto são da exclusiva responsabilidade do autor

Director Executivo do Nova Finance Center, Nova School of Business and Economics


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