João Costa Pinto
João Costa Pinto 16 de setembro de 2019 às 20:00

Lagarde e os dilemas do euro - (I)

Na verdade, ao adquirir dívida pública no mercado secundário, num contexto de políticas orçamentais apertadas, o BCE está sobretudo a financiar o stock da dívida acumulada pelos Estados.

1. A escolha de Christine Lagarde para substituir Mario Draghi representa uma mudança surpreendente em relação ao perfil tradicional dos presidentes do BCE. Na verdade, todos os anteriores presidentes pertenciam ao clube restrito dos especialistas de banca central, com uma vasta experiência de condução da política monetária. Experiência a que o actual Draghi acrescentou um conhecimento directo dos mercados financeiros internacionais, acumulado na sua passagem pelo Banco Mundial e pelo banco de investimentos Goldman Sachs.

 

Pelo contrário, Lagarde é uma jurista de formação que traz para o BCE sobretudo um conhecimento da política europeia e uma compreensão alargada dos bloqueamentos e desequilíbrios com que se debatem os mercados e a economia mundial - obtida no exercício, desde 2011, das funções de directora-geral do FMI.

É difícil antecipar como é que uma não especialista vai arbitrar as tensões que, de forma crescente, se fazem sentir no seio do Conselho de Governadores, quanto à orientação futura da política monetária. É no entanto de admitir que a sua experiência política possa, no actual contexto, vir a assumir uma importância crítica.

Neste e em próximos artigos, proponho-me abordar os bloqueamentos e as distorções que reduzem a eficácia da acção do BCE o que, por sua vez, acentua os riscos e os dilemas com que a Europa do euro se debate.

  

2. Uma das questões centrais que vão ocupar a nova presidente do BCE prende-se com a avaliação dos riscos do prolongamento da actual política monetária - novos cortes nas taxas de juro, a partir de níveis já negativos e novas operações de QE (*) - à luz da actual situação das economias do euro. Avaliação que parte da ponderação de dois tipos de considerações, com implicações antagónicas: por um lado, o reconhecimento de que a estabilidade dos mercados financeiros do euro se encontra hoje ancorada à acção do BCE; por outro, a percepção de que a eficácia marginal de novas medidas é reduzida face aos seus riscos crescentes.

 

Na verdade, ao adquirir dívida pública no mercado secundário, num contexto de políticas orçamentais apertadas, o BCE está sobretudo a financiar o stock da dívida acumulada pelos Estados. Dívida que em grande parte se encontra no balanço dos bancos que deste modo têm podido absorver alguns ganhos de capital. Os beneficiários directos da acção do BCE são assim os Estados que se estão a financiar a um custo historicamente baixo, enquanto o risco das dívidas soberanas tem vindo a ser transferido para os balanços do BCE e do SEBC (**). É a resposta do BCE à recusa da Alemanha em procurar soluções de mutualização da dívida e de ajustar a sua política orçamental de modo a aumentar a procura pública. No entanto, a eficácia desta acção é claramente reduzida. Na ausência de programas de investimento público e num ambiente em que a procura global tem arrefecido - apesar das baixas taxas de juro, do preço favorável da energia e do baixo valor do euro -, o resultado das acções do BCE tende sobretudo a esgotar-se na acumulação de liquidez no balanço dos bancos. A transmissão dos efeitos das medidas do BCE aos seus destinatários finais - consumidores e investidores - é deste modo travada com implicações complexas: baixo crescimento global da zona do euro; pressões crescentes sobre a poupança e sobre o negócio bancário, com reflexos negativos sobre a eficácia da intermediação financeira. (a continuar) 

 

 

(*) - QE - Quantitative Easing

(**) - O SEBC (Sistema Europeu de Bancos Centrais) e o BCE já acumularam nos seus balanços cerca de 2,6 triliões de euros de dívida.

 

Economista

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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