Manuel  Falcão
Manuel Falcão 10 de maio de 2019 às 11:09

Matraquilhos na Assembleia

A política portuguesa começa a assemelhar-se a uma partida de matraquilhos jogada ao fim da tarde, em que os vários partidos vão sendo eliminados ao longo de um torneio fictício com batotas avulsas pelo meio.
Back to basics
Corrijam-me se estiver enganado, mas creio que a delicada linha entre a sanidade e a loucura está a ficar cada vez mais ténue.
George Price

Matraquilhos na Assembleia

A política portuguesa começa a assemelhar-se a uma partida de matraquilhos jogada ao fim da tarde, em que os vários partidos vão sendo eliminados ao longo de um torneio fictício com batotas avulsas pelo meio. O que se passou na Assembleia da República sobre a recuperação do tempo de serviço dos professores assemelha-se, na sua displicência, a uma disputa entre adolescentes em torno de uma mesa de matraquilhos, cada um a ignorar regras. Se a Assembleia da República já é considerada um local pouco recomendável por muitos eleitores, a degradante cena agora exposta ao olhar público mais incita o eleitorado a descrer não só dos deputados, mas também dos dirigentes dos seus partidos. Segundo as regras estabelecidas pela Federação Portuguesa de Matraquilhos, no jogo de matraquilhos uma bola é considerada morta quando pára completamente o seu movimento e não está ao alcance de qualquer boneco de nenhum jogador. Depois dos movimentos iniciais, isto foi o que sucedeu. A bola ficou parada e agora ninguém a quer. Lamentável todo o processo - um "case study" de oportunismo político e insensatez que mostra como a falta de uma estratégia bem pensada produz desvarios tácticos. Um resultado lamentável, poluído de declarações ainda mais lamentáveis vindas de todos os intervenientes.

Semanada
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, 1,78 milhões de portugueses vivem com menos de 467 euros por mês, o que significa 17,3% dos portugueses segundo o Banco de Portugal, o país está mais pobre face à Europa do que antes da adesão à moeda única e a falta de produtividade compromete a melhoria de bem-estar sustentável dos portugueses no futuro constrangimentos financeiros fizeram o IPO recusar análises a doentes com cancro e vários acabaram por morrer  um relatório da Deloitte, relativo à Primavera de 2019, indica que em relação ao semestre anterior a percentagem dos que arriscam uma evolução positiva para o PIB nacional afunda de 70% para 45% segundo o mesmo relatório, três em cada quatro responsáveis financeiros de empresas assumem que este não é um bom momento para assumir riscos maiores no balanço mais de 150 autarquias em todo o país estão a ter atrasos significativos no pagamento a fornecedores Portugal só usou 25% das verbas europeias para integrar refugiados e imigrantes l as queixas por atrasos nos pedidos de reforma, que nalguns casos podem chegar aos três anos, dispararam 88% nos últimos seis meses Rui Rio afirmou que o PSD não recuou na questão dos professores e que foi tudo uma enorme confusão provocada por jornalistas Mário Nogueira anunciou estar a considerar se continua no PCP depois do que se passou com a questão da contagem do tempo de serviço dos professores.

Dixit
"O nosso homem continua a confundir a família do Rato com o país."
Vasco Pulido Valente sobre António Costa

Renascer no meio de ruínas
Um homem parte da sua terra para um país distante que está a sair de uma guerra devastadora. O ponto de partida é a Islândia, o destino é um dos países dos Balcãs onde vizinhos lutaram contra vizinhos. O homem tem como objectivo suicidar-se e para isso escolheu um hotel outrora famoso e agora decadente no meio de destroços da guerra. Envolvido pela população local, que descobre as suas habilidades como reparador de pequenas coisas, o homem reconstrói casas e a sua própria vida. Na Islândia, não tinha vida social nem sexual, trabalhava numa loja herdada do pai. Decide vendê-la e partir sem avisar ninguém. Tinha decidido suicidar-se quando soube que não era o pai biológico da sua filha, decidiu afinal viver depois de fazer reviver uma aldeia e da atracção consumada por uma ex-estrela de cinema à procura de novo rumo. Esta é a história de "Hotel Silêncio" (originalmente "Ör", que significa cicatriz) A autora é Auður Ava Ólafsdóttir, a mais premiada escritora islandesa. Este livro agora editado em Portugal ganhou o Prémio de Melhor Romance Islandês, Prémio dos Livreiros Islandeses e Prémio de Literatura do Nordic Council. A autora já escreveu cinco romances, é dramaturga, contista e professora universitária. E tem um humor fino e incisivo.

No princípio é o desenho
Depois de ter estado em Guimarães, a exposição antológica de desenhos de Rui Chafes está, até 19 de Maio, na Casa da Cerca, em Almada. Com o título "Desenho Sem Fim", a exposição apresenta trabalhos que vão de 1980 a 2017 e mostra uma faceta menos conhecida do trabalho de Rui Chafes, conhecido sobretudo como escultor. A sequência da exposição não respeita a cronologia dos trabalhos, reunindo-os em núcleos nos quais, como sublinha o texto que acompanha a exposição, "existem alguns aspectos que são recorrentes e que extravasam os núcleos independentes para se repetirem, por vezes com grandes hiatos temporais: o uso repetido de materiais que não pertencem ao domínio dos materiais "de arte", como remédios, tinturas, chá, flores esmagadas e que convocam uma inescapável ligação ao corpo e à sua permanente queda". A curadoria é de Nuno Faria e Delfim Sardo. Em simultâneo, decorre no Convento dos Capuchos uma exposição de esculturas de Rui Chafes. Entretanto, assinalem nas agendas que no dia 18, sábado da próxima semana, Vera Mantero e Rui Chafes apresentam na Casa da Cerca a sua "performance" "Comer o coração nas árvores", uma colaboração entre os dois artistas, na qual a coreógrafa e bailarina se cruza com as esculturas de Rui Chafes. Inicialmente concebida para a Bienal de São Paulo 2004 e com o título de "Comer o coração", a "performance" teve nova versão em 2015 e 2016 e a sua evolução passou pela criação de uma nova escultura de Rui Chafes, pensada para suspensão em árvores de grande porte. De apresentação muito esporádica, esta possibilidade de descobrir o trabalho conjunto de Vera Mantero e Rui Chafes no próximo dia 18 é uma ocasião a não perder.

Arco da velha
Em Abril, a ASAE ficou sem 30 viaturas utilizadas nas acções de fiscalização e perdeu as únicas cinco carrinhas frigoríficas que asseguravam o transporte de alimentos apreendidos.

Instantes decisivos em Cascais
Robert Doisneau, o retratado nesta imagem com uma Rolleiflex nas mãos, dizia, sobre a fotografia que "as maravilhas da vida quotidiana são tão entusiasmantes que nenhum realizador consegue encontrar o inesperado que se encontra nas ruas." Doisneau é um dos grandes fotógrafos presentes na exposição "Instantes Decisivos", que está patente até 14 de Julho no Centro Cultural de Cascais. A exposição inclui algumas das fotografias mais célebres de Man Ray, Robert Doisneau, Alfred Stieglitz, Carlos Saura, Elliott Erwitt, Alberto Korda e Henri Cartier-Bresson, entre outros, tudo obras pertencentes à "Colleción Himalaya", do colecionador espanhol Julián Castilla.

18 novos hinos
Depois de uma pausa de seis anos sem novos discos, os Vampire Weekend regressam com "Father Of The Bride". A produção é de Ariel Rechtshaid e do líder da banda, Ezra Koenig, e entre os convidados estão Dave Longstreth (Dirty Projectors), Steve Lacy (The Internet), Danielle Haim e Jenny Lewis. O novo álbum, o quarto da banda, é um cruzamento entre a angústia e o optimismo, como o The Guardian o classificou, e evidencia um olhar pop atento sobre os tempos que vivemos. Tem 18 canções, quase todas surpreendentes e exemplares, a começar por "Sunflower". Irresistível.

Provar
O Kook In foi ideia de Pedro Batista, que tem restaurantes Kook em Luanda, e que se associou a Rui Oliveira e Francisco Bessone, os fundadores do Nómada. O Kook In está aliás no local onde o Nómada se encontrava inicialmente, Avenida Visconde de Valmor 40A. Propõe um menu de almoço a 18 euros, mas não inclui "couvert", bebida ou café - apenas entrada, prato do dia e sobremesa. Na verdade, o menu de almoço com "couvert", um copo de vinho e café não ficará abaixo dos 27 euros, o que está fora dos preços usuais para este tipo de oferta. O preço desajustado é aliás o principal problema deste restaurante, onde o serviço tem alguma tendência a impingir mais uma coisinha, sempre com a maior simpatia. A ideia é entrar no campo da comida portuguesa contemporânea, em que o empratamento compensa o que falta no resto, como se estivesse num concurso de Instagrams. A cozinha é chefiada por Lázaro Glória, 28 anos, que com esta idade, antes de entrar neste projecto, já estagiou no Ritz, cozinhou no Penha Longa, no Mandarin Oriental de Londres e passou uma temporada na Austrália. De entre as propostas do "Chef", provei o bacalhau assado com ovas grelhadas e migas de feijão frade com chouriço e couve cortada para caldo verde (18€) - o bacalhau era bom e estava bem, as ovas eram insípidas e as migas estavam secas demais. No "couvert", destaco a qualidade das azeitonas e do pão da casa, que evoca uma "focaccia", além de um broa honesta. A lista de vinhos é bem escolhida, mas com preços altos. Uma refeição completa ("couvert", entrada, prato, sobremesa) para duas pessoas, com vinho, dificilmente ficará abaixo dos 70 euros. É demais para o sítio e a qualidade.



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