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João Costa Pinto 04 de Dezembro de 2018 às 10:15

Mutualismo - que futuro? - (I)

Está a verificar-se uma mudança estrutural do contexto socioeconómico que forma os segmentos de mercado em que historicamente o Crédito Agrícola opera.

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1.Em artigos anteriores abordei a situação do movimento mutualista e, em particular, das duas principais organizações portuguesas de raiz mutualista - o Montepio e o Crédito Agrícola. Regresso a este tema por considerar que, embora por razões distintas, ambas as instituições enfrentam problemas e desafios de grande complexidade, num contexto em mudança rápida.

 

2. O Grupo Montepio debate-se com os resultados de uma década de graves erros cometidos por uma gestão imprudente que delapidou os capitais da associação mutualista. Capitais que - ao arrepio da missão estatutária desta associação - foram colocados ao serviço de um programa insensato de alto risco, dirigido à expansão doméstica e internacional da actividade bancária do grupo. Mesmo deixando de lado eventuais ilegalidades que possam ter sido cometidas, a gravidade desta actuação decorre da utilização de capitais mutualistas em operações de grande risco. Na verdade, as opções da gestão levaram à destruição maciça de capital financeiro e reputacional, pondo em risco os interesses de centenas de milhares de pequenos aforradores. Que o(s) arquitecto(s) desta gestão se proponha(m) continuar à frente dos destinos do Grupo Montepio é o reflexo de uma inexplicável ausência das supervisões e da presença de uma densa - poderosa?! - rede de interesses e cumplicidades, aparentemente incapazes de avaliar os riscos sistémicos da situação actual. Em particular, parecem alheios ao facto de desta vez não ser possível argumentar com a surpresa e o desconhecimento dos problemas. Questões a que me proponho voltar.

 

A situação do Grupo Crédito Agrícola é distinta e os complexos desafios que enfrenta decorrem de problemas que, no essencial, já identifiquei em artigos anteriores (*). Volto a eles por considerar que a evolução recente deste grupo o colocou numa encruzilhada e que os seus próximos passos - estatutários, organizativos e operacionais - irão determinar o seu papel futuro no mercado e na sociedade portuguesa. Está em causa sobretudo a adaptação do modelo de negócio praticado pelas Caixas Agrícolas desde a sua origem - a banca de proximidade - a um contexto social e de mercado em mutação rápida, determinada por pressões com origens múltiplas conhecidas. Em particular, está a verificar-se uma mudança estrutural do contexto socioeconómico que forma os segmentos de mercado em que historicamente o Crédito Agrícola opera. Adaptação que, por sua vez, depende das respostas que o Crédito Agrícola encontrar para duas questões centrais que se encontram ligadas: por um lado, o papel da Caixa Central no seio do grupo; por outro, o processo de mudança geracional em algumas das direcções das mais "carismáticas" Caixas Agrícolas.

 

Em relação à Caixa Central, o Crédito Agrícola está perante dois problemas: como tornar sustentável o seu modelo de negócio? A surpreendente acumulação de risco italiano é um reflexo imprudente e muito perigoso do modelo actual; além disso, qual deve ser o seu papel no quadro de um modelo de "governance" do grupo capaz de responder às exigências prudenciais e aos desafios do mercado? A tentação de responder a estas questões através da concentração de funções e de poderes na Caixa Central é uma ameaça ao elemento que desde a sua origem sustenta a "banca de proximidade" - a representatividade local das Caixas Agrícolas. Questões para outro dia. 

 

(*) A banca cooperativa e mutualista - (XCVII a CI)

 

Economista

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