Paulo Farinha Alves
Paulo Farinha Alves 10 de agosto de 2018 às 12:33

Nova época de futebol em Portugal: as discussões que não VARiam

Ninguém quer saber do futebol para nada desde que o seu clube ganhe. E por isso a discussão de fundo não tem lugar e não é sequer tema central quando se iniciam períodos eleitorais como aquele em que se vive no Sporting.

Depois das emoções do mundial de futebol, da vitória dos nossos magníficos sub-19 e do tradicional interregno ocupado com o desfile dos reforços nas capas dos três jornais desportivos diários, o país do pontapé na bola prepara-se para o início dos campeonatos nacionais. Muito para além das discussões correntes sobre os principais lances e acerto das decisões dessa nova figura, que dá pelo nome de VAR, há, no plano internacional, um conjunto de movimentações que deveriam fazer reflectir aqueles que gostam do chamado desporto rei.

 

E para isso, nada melhor do que olhar para uma fotografia global que resulta de uma análise, reportada ao ano anterior, efectuada pela FIFA, e constante de um documento designado por "Global Club Football 2018 Report". O trabalho resulta de um questionário enviado a 211 associações, membros da FIFA e teve uma elevada taxa de participação, considerando que 187 delas responderam efectivamente. Pelo meio, alguns dados estatísticos que resultam de uma análise das competições organizadas por cada um dos membros e dados adicionais recolhidos pela FIFA. E neles, obvio destaque, sob a nossa perspectiva, para as duas competições mais importantes do velho continente: Champions e Europa League. Num quadro curioso, a FIFA analisa, por grupos de 9 anos, o número de países que alcançaram as finais das duas referidas competições. Portugal vai fazendo números interessantes na Europa League, mas a Champions é uma quimera cada vez mais difícil de alcançar. Aliás, no período 2011/2017 há apenas 4 (!) países que colocaram equipas nas finais: Espanha, Alemanha, Itália e Inglaterra.

 

Portugal sofre já este ano as consequências da performance das equipas nacionais ao perder um lugar na Champions. A (pouca) discussão que se ouve centra-se na responsabilidade de cada um dos clubes na descida do ranking do país e não naquilo que se deve fazer para recuperar.

 

Um outro dado interessante, e ainda menos discutido em Portugal, é a questão dos direitos de transmissão televisiva. Nos 190 países em que a FIFA recolheu informação, 171 optou pela negociação colectiva. Metade dos que optaram pela negociação individual estão na CONCACAF (confederação norte americana) e na Europa, Portugal tem apenas a companhia da Arménia, do Chipre e Ucrânia. Portugal caminha, por isso, para uma posição de orgulhosamente só nesta matéria, incapaz de compreender que a venda colectiva tem inequívocas vantagens no momento da negociação, fruto de uma maior capacidade negocial pela possibilidade de alienação em "pacote". O rácio de assimetria da receita televisiva por posição classificativa agravou-se de 2010/2011 (5,7x) para 2015/2016 (14,9x) de acordo com os dados da EY apresentados em Março nas Jornadas anuais da Liga. O que significa apenas que os 3 grandes seguem na sua senda individualista, cuidando ser possível querer saber apenas das suas posições, sem perceber que o aumento da competitividade, que uma melhor distribuição da receita permitiria, a médio prazo, um aumento das suas próprias receitas. Só que, em Portugal, a pressão dos adeptos centra-se na vitória no próximo jogo e na próxima competição. Ninguém quer saber do futebol para nada desde que o seu clube ganhe. E por isso a discussão de fundo não tem lugar e não é sequer tema central quando se iniciam períodos eleitorais como aquele em que se vive no Sporting por estes dias. A Liga, por seu turno, não tem força suficiente para impor a solução e assistiu, impávida, a uma recente discussão pública simplista em que se mediam contractos para dizer que "o meu é melhor que o teu".

 

Um outro dado revelador do que se passa em Portugal (por comparação com as demais ligas europeias), traduz-se no número de equipas campeãs nos últimos 10 anos. Partilhamos as 2 equipas com a Croácia, Gibraltar, Grécia, Escócia, Sérvia, Suíça e Ucrânia. Nos 4 países que colocaram equipas nas finais da Champions no período 2011/2017 a Espanha, a Itália e a Alemanha têm 3 equipas e a Inglaterra tem 4.

 

Vamos, por isso, iniciar o campeonato! Por entre as tradicionais discussões de arbitragem que não VARiam, ouviremos as repetidas queixas da intensidade da competição. Recorde-se apenas – nessa altura - que naqueles 4 países que levam as suas equipas ao Olimpo das competições europeias, Portugal partilha as 18 equipas com a Alemanha. Porque na Inglaterra, em Itália e em Espanha são mais 2 equipas na liga principal, com a mesma segunda volta.

 

Que role, pois, a bola e que ganhe o melhor (desde que seja o meu clube, claro)!    

 

Sócio PLMJ