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Leandro Pereira 03 de Junho de 2014 às 20:20

O desafio da criação de riqueza

É impossível desenvolver-se um país a partir de uma política contínua de redução de custo.

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Como se pode, então, estimular uma economia através de um conjunto de paliativos macroeconómicos, sem atuar na causa, na fonte de riqueza que é o tecido empresarial e a microeconomia?

Uma vez anunciada a "saída limpa" e a conclusão da missão da "Troika", é chegada a altura para, de uma vez por todas, iniciar uma estratégia que objetivamente compense o custo futuro da dívida pública e seja capaz de tornar realidade a criação de riqueza. Sob pena, caso contrário, de a expressão se converter num perigoso chavão que apenas oculta a incapacidade de reforma e de mudança face aos maus hábitos instalados.

 

O passado mostra-nos que nascemos com uma mesada no bolso, crescemos com fundos comunitários e gerimos com base em orçamentos aprovados. Com isso, uma geração inteira perdeu a competência de saber ou conseguir criar riqueza. Em grande parte porque o princípio mais elementar do retorno económico foi, e é ainda, colocado em segundo plano. E o orçamento tratado como um documento que, na prática, mais não tem sido do que a representação numérica de vaidades, imediatismos e interesses pessoais. Como se o ponto de partida nos tivesse de indicar o ponto de chegada.

 

Tal demonstra falta de consciência e limita-nos, infinitamente, à contingência do "habitat" ter de proporcionar-nos todas as condições necessárias de felicidade, bem-estar e realização de sonhos, sem que para isso tenhamos de desenvolver qualquer tipo de esforço ou passarmos por qualquer desconforto. Tal como um filho que sempre viveu ao abrigo dos pais, protegido de todas as intempéries e desculpado de todas as infelicidades, próprias dos tempos modernos. Evita-se lidar com a frustração e exige-se a todo o momento mais e melhores condições porque não sabemos viver de outra forma.

 

É nesta impreparação que uma sociedade inteira enfrenta uma das maiores crises económicas e de valores de que há memória.

 

A par desta realidade social, observamos uma realidade política que nos faz assistir de forma recorrente ao extraordinário momento do orçamento de estado (a tal mesada) onde se discute tudo, menos a criação de riqueza para a economia. Esquecem-se as políticas públicas estruturantes que criam as condições para que a economia real se possa encarregar desse importante vector de desenvolvimento. E se isso já não acontecia em época de bonança, chegada a crise as políticas destinaram-se exclusivamente à redução de custos. Como pode, então, desenvolver-se um país a partir de uma política contínua de redução de custo? Como se pode estimular uma economia através de um conjunto de paliativos macroeconómicos, sem atuar na causa, na fonte de riqueza que é o tecido empresarial e a microeconomia?

 

Há uma razão central: o processo de orçamentação limita-se a um jogo de poder, desajustado do interesse coletivo e social. Este, por sua vez, e na ausência da via estruturante do Estado, está viciado em crédito. Só investe com alavancagem financeira e comete-se frequentemente o erro de principiante que nos condena eternamente: como temos orçamento, a receita é um desejo, é uma expectativa, um sonho. Então, invertemos a equação e começamos pelos custos até ao ínfimo detalhe. Já quanto aos proveitos, remetem-se para a última página, onde em dois parágrafos afirmamos eloquentemente que começamos com 50 clientes e crescemos 10% ao ano em volume de negócios.

 

Mas, afinal como pode Portugal criar riqueza? Como pode a nossa economia unir esforços e direcionar a sua energia para uma orientação objetiva, racional e próspera? Será preciso reinventar a roda, quando outras Economias já o fizeram?

 

Há inúmeros exemplos de esforços concertados dados por potências económicas mundiais perfeitamente consolidadas, como é o caso da Alemanha, que baseiam o seu tecido empresarial no setor industrial, em particular na metalurgia e na química, ou a Holanda que é uma referência internacional no setor primário, em particular na horticultura, floricultura e produção de leite.

 

Será esta concertação e este sucesso fruto do acaso? É óbvio que não. Em primeiro lugar, porque definem políticas públicas de médio-longo prazo. Depois, porque criam as condições para que o sector privado participe ativamente na implementação dessas políticas. Por isso, em Portugal é improvável que a economia prospere sustentada no princípio da aleatoriedade, em que cada um investe de forma isolada e suportada numa fiscalidade mutante e pouco competitiva.

 

É este, portanto, o momento de direcionar esforços e pôr a energia num sentido estratégico, cabendo ao governo o papel crucial na definição do nosso rumo.

 

CEO da Winning Management Consulting e Prof. Universitário ISCTE Business School

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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