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Ana Marreiros 01 de Junho de 2016 às 19:45

O duplo papel dos "investor relations"

Como é que o modelo de negócio da minha empresa pode comunicar melhor com os investidores? Esta questão está a ser levantada por muitos "investor relations", os profissionais responsáveis pelas relações com os mercados financeiros, que se relacionam com os diferentes investidores das empresas.

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Uma parte da solução para esta dúvida são os fundos socialmente responsáveis. Apesar de os investidores terem diferentes práticas e diferentes perspetivas na tomada de decisão dos investimentos, é cada vez mais natural que juntem critérios ambientais, sociais e de "governance" aos habituais critérios financeiros. Mas uma das principais barreiras ao crescimento dos fundos socialmente responsáveis é precisamente o desconhecimento do tema por parte dos "investor relations". Tipicamente são profissionais concentrados nos indicadores económicos e no desempenho financeiro da empresa.

Na prática, não há nada de errado neste foco. Todavia, há que ter em conta que os mercados estão a mudar. Segundo o Global Sustainable Investment Review de 2014, o volume mundial de fundos socialmente responsáveis é superior a 21 biliões de dólares, sendo o investimento liderado pelos investidores institucionais – os fundos de pensões – e de forma tradicional – as ações e os bonds. Ou seja, pelos investidores que aplicam o seu dinheiro nas empresas.

No verão passado, França lançou o The Energy Transition Act, um plano de ação para preparar o país para a era pós-petróleo e o primeiro passo para o novo modelo energético francês. A 31 de dezembro de 2015, o plano de ação passou a lei  Energy Transition for Green Growth law  e do ponto de vista dos investimentos, o artigo 173 foi o mais comentado. O artigo 173 impõe que as cotadas e as instituições financeiras passem a reportar os riscos dos negócios relacionados com as alterações climáticas, e impõe o alinhamento dos portefólios dos investidores institucionais com as políticas climáticas francesa e internacionais.

Neste artigo há pelo menos quatro desafios que impactam o mercado de capitais, mas que, simultaneamente, promovem os fundos socialmente responsáveis  é exigida transparência ao nível das políticas de investimento, da exposição aos riscos climáticos, da relação entre emissões de carbono e ativos financeiros e do alinhamento dos portefólios de produtos e serviços com a transição energética.

No mundo globalizado em que vivemos, não tenhamos dúvidas de que o artigo 173 vai ter impacto além do mercado francês. Estas mudanças na forma como as empresas e os investidores atuam e comunicam vão contribuir para a procura de indicadores não-financeiros das empresas a nível internacional. A Suécia prepara-se para ser o próximo país a implementar regras semelhantes e, em 2019, vai entrar em vigor a nova legislação europeia do Capital Markets Union, que será coerente com a importância crescente dos fundos socialmente responsáveis.

Os investidores, que ainda não o fazem, passarão a encarar os critérios ambientais, sociais e de "governance" como parte do "fiduciary duty" das instituições que gerem as poupanças. As motivações financeiras passam a ter outras… motivações. É aqui que surge o duplo papel dos "investor relations". Além do que já fazem, estes profissionais terão agora de disponibilizar informação não-financeira aos investidores.

Como dizemos na comunicação, os "investor relations" terão de saber contar histórias sobre o impacto que os projetos ambientais, sociais e de "governance" têm no desempenho financeiro da empresa. Os "investor relations" serão a chave para que as empresas comecem a difundir mensagens mais fortes e mais assertivas sobre os modelos de negócios e seus impactos em vários domínios, que vão muito além do domínio financeiro. Como é que o modelo de negócio da minha empresa pode comunicar melhor com os investidores? Uma das respostas passa de certeza por uma narrativa que contenha a dose certa entre os critérios financeiros e não-financeiros da empresa.

A (des)propósito… As políticas de investimento dos governos também deveriam ter os fundos socialmente responsáveis como referência. O mundo seria muito melhor. 

 

Communication and Community Manager do BCSD Portugal – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

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