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José Veiga Sarmento 21 de Abril de 2020 às 20:00

O medo mata

O medo de uns e de outros pode fazer com que esta crise acabe mesmo mal para a Europa. Mas se isso acontecer, os que cá ficarem vão ter dificuldade em explicar porque tudo acabou assim. 

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O medo é um reflexo essencial para a nossa sobrevivência. Mas se nos imobiliza e impede de reagir, condena-nos a uma destruição certa. O inverso tem curiosamente o mesmo efeito destruidor. A ausência de medo torna-nos um alvo fácil para os nossos inimigos, faz de nós um peão cego, à espera de ser atropelado pela primeira adversidade.

Ora, o tempo que vivemos é o tempo do medo absoluto: medo do vírus que não se vê, medo da morte, medo de desarmar o confinamento que nos protege, medo das segundas vagas da pandemia que podem vir, medo do custo para a economia das medidas que se vão acumulando para a sua salvação, medo das dívidas públicas que os Estados se propõem contrair para salvar a situação.

Este medo global tem na Europa ainda outras declinações. Para os países do Sul, menos sábios e judiciosos no passado a gerir as suas contas e agora a braços com a recuperação dolorosa de uma recente crise financeira internacional, o medo é que a União Europeia não seja a protectora dos momentos difíceis. Para os países do Norte, o medo é outro. Para a Alemanha, país que se orgulha de ser certo nas suas contas (esquecendo as que fez no passado), bem como para a Holanda, comunidade hábil em gerir as suas poupanças e as riquezas dos outros (offshores), o medo é que seja posto em causa o seu conforto, conquistado aliás de pleno direito e no respeito de todas as regras.

É este um medo circular e absoluto que paralisa agora a Europa e que, não sendo resolvido, provocará inevitavelmente a destruição deste projecto de solução, iniciado há 70 anos por um continente que viveu ao longo dos séculos em permanente autoflagelo. Que não haja dúvidas: a comunidade que é a herdeira hoje do movimento lançado no pós-Segunda Guerra Mundial não está formalmente dotada dos ingredientes adequados para superar a presente crise. Ou acontece algo de novo e a Europa se transforma, ou a cristalização dos medos de uns e de outros, impossibilitando a reacção, abre o caminho aos movimentos internos da autodestruição.

Foi o medo do vírus que fez a Alemanha abrir os cordões à bolsa para responder à sua crise, pondo à disposição, das suas pessoas e empresas, dinheiro ao nível de 6% do PIB, a que acrescentou mais 25% para garantias financeiras. Ora é também o medo que impede neste momento Itália e Espanha, os países mais atingidos pela destruição da covid-19 e que mais de ajudas necessitam, de se lançarem na mesma via, já que as suas finanças públicas e a recente experiência europeia de austeridade regeneradora com troikas, funcionam como um dissuasor intransponível.

O mesmo medo impede literalmente os países do Norte de pensar na solidariedade a que os países do Sul acham que têm direito no contexto da União a que todos pertencem. E enquanto uns se agarram ao “status quo”, i.e., aos instrumentos existentes que foram tirados a ferros há 10 anos para ultrapassar a crise da dívida soberana de então, outros exigem que a Europa emita dívida para os salvar. No ponto em que estamos, o medo de uns somado ao medo dos outros é a receita para um drama maior, porque, ao não salvar os países do Sul, a economia continental que está na base da actual riqueza da Alemanha será desarticulada. E o receio é que, não havendo correcção substantiva da forma como Itália foi tratada pelos seus parceiros europeus nesta crise, estão entregues as chaves da implosão europeia à equipa Salvini e companhia.

No entanto, não parece ser assim tão difícil vencer o medo, porque de facto, já se deveria ter percebido que o BCE (uma vez mais) fez o que os políticos não conseguiram (uma vez mais) fazer: oferecer uma solução para o problema. É que a solução já existe e está na compra a que o BCE se comprometeu fazer da dívida que Itália e os outros países venham a emitir, sem que seja explícito um limite aparente. Estarão os alemães contra? Os alemães (ou melhor, alguns deles) sabem bem o que representa a Europa para o seu futuro económico e que é do interesse da Alemanha ser uma força no sentido da solução.

Sobra depois o medo de quem irá pagar a dívida comprada pelo BCE. E aí, na verdade, por muito que custe aos puristas, uma resposta possível a médio-longo prazo, pode vir a ser... ninguém. Alguém conhece o que se passa no Japão?

Se a Europa não conseguir resolver o presente impasse, a implosão pode vir a ter dois tipos de saídas: ou os países do Sul saem do euro e imediatamente a seguir da Europa, ou é a Alemanha e os puristas que saem do euro. Esta seria a melhor das soluções. Mas em qualquer dos cenários, a Alemanha sabe que fica a perder já que ou perde o mercado único ou fica num mercado único com uma moeda hipervalorizada, onde será muito difícil manter as exportações para o resto da Europa.

O medo de uns e de outros pode fazer com que esta crise acabe mesmo mal para a Europa. Mas se isso acontecer, os que cá ficarem vão ter dificuldade em explicar porque tudo acabou assim. 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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