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José Veiga Sarmento 01 de Setembro de 2020 às 09:20

O ódio na política

Se Portugal chumbar no exame da recuperação económica, corre o risco de acabar como um Estado falhado? Que país é este onde queremos viver? Merecemos melhor.

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O ódio como forma de fazer política vai ganhando o seu espaço em Portugal. O ódio que se vai institucionalizando e que é aceite como normal no seio da sociedade. Esse não é um momento novo para nós: os mais velhos têm bem presente o ódio antifascista de 1974 e o ódio anticomunista de 1975, que marcaram tão profundamente a nossa jovem democracia.

Sendo uma das componentes inatas do comportamento humano, o ódio como forma de fazer política não é, no entanto – e ao contrário do que acontece em ditadura –, algo normal em democracia. Enquanto em democracia as possibilidades de as diferentes vozes serem ouvidas são múltiplas e permanentes, em ditadura a expressão está limitada a um cardápio único em que tudo o que não for aí permitido se torna quase impossível sequer de ser desejado. Nesse quadro fechado, a resposta instintiva para as tensões acumuladas é o recurso ao ódio, mecanismo que, depois, vai desencadear a violência do sistema ditatorial que se sente atacado.

Mas mesmo em democracia, situações há em que em resultado de injustiças flagrantes, dramáticas dificuldades económicas, cansaço psicológico ou apenas por stress religioso, a democracia deixa de funcionar. Nesses momentos, a urgência toma conta das mentes humanas e o recurso ao ódio funciona como um apelo ao combustível para pôr em marcha, imediatamente, a mudança ambicionada. Então, ou a democracia encontra forma de resolver e dissipar essas tensões ou o caos que se instala acaba por impor o fim da própria democracia. Foi o que aconteceu em Portugal no final da Primeira República quando, esgotada a paciência pelos golpes de Estado sucessivos e com o país mergulhado numa profunda crise económica e social, o povo acabou por agradecer a salvação pela ditadura.

Por este mundo fora, o ódio vai instalando-se com grande intensidade dramática na vida política. Primeiro em Inglaterra, a mais velha democracia moderna (a democracia foi inventada na Grécia há mais de 2.500 anos), onde a insatisfação generalizada foi servida pela habilidade, cinismo e dinheiro russo, que alimentaram o ódio à Europa. Temos o direito de duvidar se irá bom para os Ingleses, mas sabemos que não será favorável à Europa, e também que este era o objectivo de Putin. Depois, os Estados Unidos elegem um Presidente que, não reunindo as características mínimas para o exercício do poder numa freguesia, se viu ao comando da maior potência económica e militar do mundo. A actual destruição da ordem internacional – tão arduamente construída pelos EUA após a II Guerra Mundial – não melhorou a situação dos EUA nem a dos seus aliados. Esse era, certamente, outro sonho de Putin. Não há dúvida de que o ódio produz resultados.

Estamos hoje mais uma vez a aprender a viver com o ódio. O ódio do outro, do vizinho, do estrangeiro. Damo-nos conta de que a força do ódio, quando lançada em corrente humana, é avassaladora. Extraordinário é constatar que a reacção ao ódio acaba por ser de aceitação e cobardia. O que será que está a falhar agora? O que parece falhar hoje é mesmo a capacidade por parte da democracia em integrar as preocupações de muitos que se sentem abandonados e perdidos no seu dia-a-dia ou nos seus sonhos. Como se viu no passado, ignorar essas falhas é o caminho para o suicídio das democracias. Perceber o problema e encontrar o remédio é uma questão de sobrevivência.

No caso português estamos ainda num estágio muito preliminar e o ódio relatado nos jornais, entre a extrema-direita e a extrema-esquerda, é ainda folclórico. Mas que impõe desde já a clarificação das linhas vermelhas. Ameaças à integridade física de pessoas são inaceitáveis, qualquer que seja o pretexto. A nossa sociedade elege a liberdade, o que pressupõe integridade física, como o pilar primeiro da nossa organização social. Permitir milícias, à solta, perseguindo, agredindo ou, em última instância, assassinando pessoas, é a antecâmara do inferno. Não pode haver aqui dúvida na resposta que deve ser dada.

Mas é urgente procurar perceber o que se passa. São com certeza múltiplas as causas, mas o actual panorama das prioridades políticas nacionais não ajuda nada. Não podemos continuar eternamente prisioneiros de conceitos que têm a ver unicamente com a fé e a ideologia de minorias e que apenas têm como resultado provocar os outros. A experiência da “geringonça”, teve a virtualidade de abrir a normalidade política ao exercício de opinião da extrema-esquerda, retirando-a do submundo, trazendo-a para o mundo de todos. Foi útil como exercício de democracia, mas o prazo de validade da experiência foi ultrapassado e agora temos pela frente necessidades reais de sobrevivência económica.

Que a receita da “geringonça” se esgotou foi a conclusão a que o Partido Socialista chegou já há algum tempo, mas não conseguindo resolver a equação, procura agora recuperar a fórmula estafada. Apesar de termos uma economia para salvar, a vida política portuguesa continua feita à volta das chamadas causas fracturantes, fantasmas em que se esgotam as preocupações da esquerda. Causas que têm a particularidade de irritar a extrema-direita que nessas causas fracturantes só vê ataques assassinos ao seu imaginário de passado glorioso, que aliás o conhecimento da História não confirmaria. Animados por este pingue-pongue estéril, somos cúmplices do haraquíri democrático. A democracia em Portugal não pode continuar cativa da cegueira dos extremos, sem que o essencial tenha direitos de cidadania.

Porque teimam o Parlamento e os órgãos de comunicação em viver do PAN, da Joacine, do Chega e da Resistência Nacional? Porque não estão o espaço político e a sociedade em geral ocupados em compreender e contribuir para o sucesso do plano de investimentos que a Europa generosamente oferece para nos salvar? Porque insistimos em considerar como prioritário o bem-estar dos canídeos, as suposições subliminares de teor racistas e as agressões à cultura tradicional quando, se Portugal chumbar no exame da recuperação económica, corre o risco de acabar como um Estado falhado? Que país é este onde queremos viver?

Merecemos melhor. 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Não podemos continuar eternamente prisioneiros de conceitos que têm a ver unicamente com a fé e a ideologia de minorias.

 

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