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Avelino de Jesus - Economista e professor no ISEG 22 de Novembro de 2015 às 19:27

O perigoso reforço do expansionismo do BCE

No próximo mês de Dezembro deverão ocorrer dois movimentos significativos nas políticas monetárias na União Europeia e nos EUA.

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Enquanto se espera que o banco central americano irá aumentar a sua taxa directora, o BCE já sinalizou que pretende agravar, novamente, os custos dos depósitos dos bancos comerciais junto do BCE, actualmente com taxa negativa de -0,2%.

 

Este movimento do BCE é surpreendente, uma vez que os seus responsáveis tinham dado a entender que já se tinha atingido o limite inferior daquela taxa. Por outro lado, o BCE mostrou vontade de alargar igualmente o programa de compra de obrigações, quer na duração das operações quer nos seus montantes.

 

Com o reforço deste experimentalismo monetário das taxas de juro nominais negativas - embora fenómeno absolutamente novo -, passou a ser entendido como normal e não como situação passageira. Os estímulos monetários visando a recuperação das variáveis reais da economia assumem, explicitamente nuns casos, implicitamente noutros, pretender desvalorizar o euro, aumentar a taxa de inflação e pressionar os bancos comerciais a expandirem os empréstimos à economia real.

 

O objectivo primeiro dos estímulos monetários - o crescimento do PIB - não tem sido atingido pelo BCE. Este ano o Stoxx 600 já aumentou 11%, o euro desvalorizou 10%, mas o crescimento do PIB é 1% e o crédito à economia expandiu 0,6%.

 

Como não se verificaram os problemas temidos nos mercados monetários, o BCE julga que pode continuar o experimentalismo, reforçando as doses. Simultaneamente, o BCE, em grande parte para justificar o fracasso das suas intervenções, reforçou os apelos visando solicitar aos governos o expansionismo das políticas orçamentais.

 

Algumas experiências mais avançadas na Suíça e na Dinamarca - onde as taxas de juros dos depósitos nos bancos centrais já atingiram valores de -0,75% - parecem indicar que os efeitos mais temidos, como o entesouramento maciço das notas, não ocorreram, e encorajam o BCE a prosseguir esta política.

 

Por outro lado, outros fenómenos de curto prazo parecem muito convenientes. As taxas de juro das obrigações soberanas dos países da periferia sul do euro caíram fortemente. As obrigações as dez anos de Espanha (1,75%), Itália (1,55%) e Irlanda (1,06%) baixaram para níveis inferiores aos EUA (2,26%) e Reino Unido (1,95%); só Portugal (2,55%) e Grécia (6,95%) registam valores superiores.

 

Porém, a reforçada política expansionista do BCE - não tendo atingido os objectivos de curto prazo prometidos - tem consequências de médio e longo prazo altamente nocivas. 

 

Primeiro, suporta as empresas insolventes, impedindo a reestruturação do tecido empresarial altamente distorcido pela bolha criada antes da crise.

 

Segundo, reforça a má alocação de recursos, incentivando a tomada de riscos exagerados.

 

Terceiro, provoca a inflação nos preços dos activos - acções, obrigações, arte, imóveis - chocando bolhas que já estão a ter repercussões nas economias dos países emergentes.

 

Quarto, desencoraja a poupança.

 

Quinto, ajuda a manter bancos-zombies, permitindo a renovação indefinida dos empréstimos malparados.

 

Sexto, distorce a distribuição dos rendimentos e da riqueza, beneficiando principalmente o sector financeiro e agravando a já excessiva financeirização das economias.

 

Além de ineficaz na recuperação da economia real, a política monetária do BCE tornou-se, assim, num forte travão às reformas estruturais (permitindo alívios fictícios aos governos) e num perigoso engenho de instabilidade financeira.

 

Economista e professor do ISEG

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