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João Carlos Barradas - Jornalista 23 de Abril de 2008 às 13:59

O que pensam os brancos amargurados?

O que mais importa nesta quarta-feira é saber como o eleitorado branco democrata de baixos rendimentos da Pensilvânia votou por Barack Obama. O candidato cometeu um dos maiores lapsos desta campanha ao qualificar os eleitores das pequenas cidades da Pensi

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O candidato cometeu um dos maiores lapsos desta campanha ao qualificar os eleitores das pequenas cidades da Pensilvânia como gente amargurada pela perda de empregos que sublima as suas frustrações através do culto das armas, da religião e da xenofobia.

Apurar quanto pesou esta tirada na votação é um dos elementos fulcrais para perspectivar as hipóteses de Obama na contenda presidencial.

Uma vitória indispensável

Caso se tenham confirmado as sondagens que davam uma vantagem média de sete pontos a Hillary Clinton, a senadora de Nova Iorque continua na corrida pela nomeação presidencial, mas uma vitória inferior aos 10% de avanço conseguidos pela candidata no Ohio a 4 de Março nada de bom augura para as suas ambições.

A Pensilvânia é um estado com perfil demográfico favorável a Hillary: 85% da população é branca (média nacional: 74 %), os negros representam 11 % dos 12,4 milhões de habitantes (menos 1% do que a média do país) e os hispânicos são a maior minoria 4% (15 % a nível nacional).

O rendimento médio de 20 800 dólares é inferior aos 21 587 dólares da estatística nacional, a percentagem de pessoas maiores de 65 anos atinge os 15 % (só superada pela Florida e a Virgínia Ocidental) e com 22,4 % de licenciados a Pensilvânia encontra-se dois pontos abaixo da média nacional.

Todos estes indicadores num estado em quebra demográfica e económica, bem como a presença de uma grande comunidade católica – 53% da população num país onde apenas 25 % professam a fé católica – e até a maioria feminina da população (51,4 % de mulheres para uma média nacional de 50,7%) favoreciam largamente Hillary Clinton.

O apoio de eleitores democratas brancos de baixos rendimentos (menos de 50 mil dólares/ano) e fracas qualificações académicas, além do voto feminino, hispânico e de maiores de 55 anos, fora fulcral para as 16 vitórias de Hillary contra 26 de Obama (em termos de votos expressos) e, a confirmar-se de novo a dificuldade do senador do Illinois em captar estas faixas do eleitorado, o candidato estará em apuros no confronto com John McCain.

Um candidato com defeito grave

Mais do que voltar a perder um grande estado, como aconteceu na Califórnia, em Nova Jersey, Nova Iorque, Texas ou Ohio, Barack poderá ter-se confrontado mais uma vez com a rejeição do eleitorado branco (que se fez sentir menos no Ohio e em New Hampshire) e partir em desvantagem para as próximas primárias de 6 de Maio, sobretudo em Indiana, apesar de ser favorito na Carolina do Norte.

A confirmar-se a dificuldade de Obama em ganhar o eleitorado branco, as suas possibilidades de triunfo na votação de Novembro diminuem drasticamente.

Sondagens da Universidade de Quinnipiac realizadas na Pensilvânia na semana passava indicavam que 34% dos eleitores democratas brancos optariam por votar em McCain em vez de Obama e idênticos resultados surgem em dois outros estados vitais para a eleição de Novembro: a Flórida e o Ohio.

É com esta perspectiva que Hillary conta para tentar virar a seu favor a maioria dos delegados democratas, sublinhando, ainda, as vitórias que obteve nos estados com maior número de votos para o colégio eleitoral, resguardando-se, no entanto, a excepção do Illinois onde venceu Obama.

Um eventual triunfo na Pensilvânia, onde se repartiam proporcionalmente 158 delegados, não terá, contudo, possibilitado a Hillary reduzir significativamente a sua desvantagem para a Convenção de Denver em Agosto.

Antes da votação de terça-feira estavam em disputa 588 delegados e a senadora de Nova Iorque contava, segundo estimativa da Associated Press, com 1.251 mandatos, enquanto que Obama tinha garantidos 1.415.

Com mais nove primárias pela frente, o senador do Illinois, independentemente do resultado na Pensilvânia, chegará com uma maioria de delegados eleitos à Convenção de Denver e, muito provavelmente, em vantagem no número de votos expressos a seu favor (mais 700 mil do que Hillary antes da votação de ontem).

Obama terá, no entanto, de garantir apoio maioritário entre os 794 notáveis do partido, os chamados superdelegados com liberdade de voto, para conseguir os 2.025 delegados necessários para a nomeação.
Hillary somava ontem o apoio de 258 superdelegados e Obama tinha a seu lado 233.

Uma eleição renhida

Seis semanas depois da última votação no Mississippi, ambos os candidatos democratas viram aumentar os seus níveis de rejeição e o tom acrimonioso da campanha favoreceu John McCain.

O candidato republicano passou a surgir nas sondagens empatado num eventual confronto com Clinton e apenas um ponto abaixo de Obama, apesar do agravamento da situação económica e do recrudescer da violência no Iraque que levam 66 % dos norte-americanos a desaprovar a administração republicana.

A vitória democrática na eleição presidencial que se prefigura em Janeiro é, agora, bem menos certa e o arrastar da disputa entre Hillary e Barack prejudica notoriamente o Partido Democrático.

Um sinal da tormenta surgiu terça-feira com a decisão do Partido Democrático da Carolina do Norte de anular o debate entre os dois candidatos agendado para 27 de Abril.

Constrangimentos de tempo e questões logísticas foram as razões apresentadas para o cancelamento do debate, mas a frase reveladora do comunicado era esta: “registam-se, ainda, preocupações crescentes sobre as consequências de mais um debate para a unidade do partido”.

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