João Costa Pinto
João Costa Pinto 27 de janeiro de 2020 às 19:45

Os bancos e a economia - (IV)

Quanto ao BCE, dados recentes sobre o comportamento desfavorável do financiamento bancário ao tecido produtivo na Zona Euro mostram a crescente ineficácia da política monetária - apesar das taxas negativas e da injecção maciça de liquidez nos mercados .

1. Como referi anteriormente, a avaliação da situação dos nossos bancos deve ser feita à luz das pressões que estão a forçar mudanças profundas no modelo tradicional de negócio bancário na Europa do euro. 

 

Para além do impacto crescente da inovação tecnológica - sobre os sistemas de pagamentos, as técnicas de avaliação de risco, a digitalização das formas e dos meios de pagamento, os canais e as plataformas digitais de contacto com grupos cada vez mais alargados de clientes - os bancos têm vindo a absorver as pressões que decorrem da acção do BCE e da supervisão única.

 

Quanto ao BCE, dados recentes sobre o comportamento desfavorável do financiamento bancário ao tecido produtivo na Zona Euro mostram a crescente ineficácia da política monetária - apesar das taxas negativas e da injecção maciça de liquidez nos mercados - reflectindo a acumulação dos efeitos perversos que referi no artigo anterior. Política monetária que resulta das contradições doutrinárias e dos obstáculos políticos que mantêm o BCE isolado no combate aos riscos de deflacção e de fragmentação que permanecem como uma ameaça ao euro e ao próprio projecto europeu.

 

É a este respeito significativo que a nova Comissão eleja como vectores centrais da sua acção a "igualdade de género" e a "neutralidade carbónica". Questões de importância inegável, mas que não deviam deixar para segunda prioridade a urgência em completar o edifício institucional e jurídico da união bancária, nem a operacionalização de instrumentos de estabilização e de relançamento da actividade económica. Bem como o avanço de um programa dirigido à implantação de mercados de capitais integrados na área do euro. Atitude da Comissão que decerto reflecte a feroz resistência alemã a soluções que passem pela mutualização de dívida ou de qualquer outra forma de responsabilidade - ainda que mitigadas e controladas, de modo a reduzir os riscos de "moral hazard".

 

2. Por seu lado, a supervisão única tem procurado - para além das preocupações com a robustez e a solvabilidade dos bancos - favorecer um movimento de concentração bancária, com múltiplos objectivos: em particular, a redução do número de bancos sistémicos que supervisiona; a formação de "campeões europeus" capazes de, simultaneamente, competir com os gigantes americanos e impulsionar um movimento de desenvolvimento de segmentos críticos de um mercado de capitais integrado a nível europeu. Questão de importância central, quer devido ao interesse em diversificar as fontes e os instrumentos de financiamento do tecido produtivo quer para reorganizar o mecanismo de transmissão dos impulsos da política monetária, bem como reduzir o peso do risco sistémico bancário.

 

Na verdade, os mercados bancários europeus tradicionais - integrados por bancos comerciais polivalentes - tendem a preencher de forma quase exclusiva a actividade de intermediação financeira, o que, por sua vez, tem contribuído para travar o desenvolvimento de mercados financeiros alternativos, com prejuízo do financiamento da economia, em particular do investimento e da inovação.

 

Em contrapartida, a actividade dos grandes bancos mais especializados - bem como de um número crescente de megafundos - é sobretudo conduzida no interior dos próprios mercados de capitais, impulsionando o seu desenvolvimento.

 

Acresce que a acção da supervisão única tem-se feito sentir de forma intensa nos mercados bancários das economias devedoras mais frágeis - caso da nossa economia - com implicações financeiras e políticas particularmente complexas (a continuar).


Economista

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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