António Moita
António Moita 10 de novembro de 2019 às 18:00

Os portugueses falam, falam, falam…

Comentamos tudo, criticamos tudo mas fazer, agir, concretizar são verbos que usamos com pouca frequência.
Somos definitivamente um Povo simpático. Falamos de tudo, comentamos tudo, criticamos tudo mas fazer, agir, concretizar são verbos que usamos com pouca frequência. Dos políticos queremos distância, mas quando votamos, aqueles que ainda o fazem, damos a nossa confiança aos mesmos de sempre. Os quatro grandes partidos tradicionais continuam a ter mais de 75% dos votos.

Na saúde, todos criticamos os serviços, os atrasos, as greves, as ineficiências, as negligências. Mas verdadeiramente só os médicos e os enfermeiros é que dão sinais de inconformismo. Pena é que normalmente o façam para ver melhoradas as suas condições salariais ou de trabalho.

Na educação, todos criticamos a falta de condições de muitas escolas, a insegurança, o preço dos livros escolares, as constantes mudanças curriculares. Uma vez mais apenas professores e auxiliares aparecem a manifestar a sua revolta. Pena é que o façam, também aqui, para ver melhoradas as suas condições salariais ou de trabalho.

Na justiça, todos criticamos a sua morosidade, a dificuldade em ver executadas as sentenças, as decisões de juízes, a falta de adequação às realidades do presente. Mas apenas os profissionais do foro vão à luta. Curiosamente aqui, no caso dos juízes, as reivindicações salariais deixaram de ser tema porque foram satisfeitas e até já podem ganhar mais do que o primeiro-ministro.

Mas é curiosa a nossa capacidade em nada fazer de concreto perante casos que provocam genuína indignação. Os bancos já dão lucro, mas nós continuamos agarrados a milhares de milhões de euros enterrados em buracos sem fundo. Com exceção de alguns lesados que continuarão por muito tempo a aguardar uma decisão judicial, os contribuintes estão resignados e terão de assumir esta divida negra que não para de aumentar. Depois dos incêndios de Pedrogão o País mostrou que era solidário e ajudou quem mais sofreu.

Todos sabemos a pouca vergonha que envolveu a distribuição de alguns destes apoios. Até agora nenhuma consequência foi retirada. E nós o que fazemos? Dizemos apenas, conformados, que da próxima já ninguém nos engana.

O engenheiro Sócrates descobriu agora que suportou as suas despesas megalómanas, para além do fiel amigo, também no cofre da sua mãe onde em tempos terão sido depositados, sem qualquer registo que o comprove, um milhão de contos na moeda antiga provenientes de uma herança que ninguém conhecia. Os portugueses, mais uma vez resignados, riem-se deste desplante e desta falta de pudor. Mas nada mais fazem. Uma criança recém-nascida é atirada para um caixote do lixo em plena cidade de Lisboa. Todos ficamos chocados com a situação, louvamos a atitude solidária do sem-abrigo e a competência do enfermeiro. Mas daqui a alguns dias, já não nos lembraremos dos gravíssimos problemas sociais que estão na sua génese e que não somos capazes de prevenir, nem sequer no apoio efetivo e organizado ao conjunto de pessoas que, entregues a uma sorte cruel, vagueiam de dia e de noite pelas ruas da cidade.

Estes casos são apenas um exemplo de tantos outros que diariamente nos são transmitidos pela comunicação social e que discutimos, em casa, no trabalho e nos cafés, mas também nos diferentes espaços de intervenção que canais de televisão e de rádio abrem aos seus públicos. Temos a consciência de que não gostamos de viver assim. Mas não queremos, ou não sabemos, fazer nada para tentar viver melhor. Talvez seja por isso que os chamados "movimentos populistas" estão a crescer. Porque nos alertam para situações revoltantes e injustas que bem conhecemos, mas nos incitam a tomar atitudes drásticas para as erradicar. Será o melhor caminho? Provavelmente não. Mas se não existir outro…

Coluna semanal à segunda-feira
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