José Veiga Sarmento
José Veiga Sarmento 11 de novembro de 2019 às 19:35

Portugal, Espanha e a Catalunha - Da vertigem da emoção aos factos e à razão

Não esquecendo a História, julgamos não ser possível desvalorizar o ar que há 30 anos se respira nesta Península Ibérica. É impossível não valorizar a ausência de toxicidade que se vive entre lusitanos e espanhóis, agora movidos por interesses que descobriram poder partilhar.

A imprensa portuguesa vai colorindo com declarações apaixonadas as imagens das movimentações independentistas da Catalunha, documentadas pela violência de alguns manifestantes e da respectiva repressão policial. Prevalece nos nossos analistas o sentimento cristão de simpatia e apoio aos mais fracos, neste caso adaptando o gesto solidário a uma narrativa de esquerda, que aceita e promove como bem último toda e qualquer manifestação de autodeterminação. Como se o proclamado inalienável direito à autodeterminação fosse parte de um inevitável e contínuo processo desagregacionista, que só terminaria quando a divisão infinita atingisse o átomo, ou eventualmente, mais além.

 

Acresce que as forças emotivas deste lado da fronteira, se carregam em memórias históricas particularmente poderosas, alimentadas por uma inimizade de séculos. Não faltam também, na questão de Portugal e Catalunha, referências às circunstâncias em que Portugal retomou a independência em meados do século XVII, abrindo uma dívida lusitana pelo que os catalães, na altura, não ganharam.

 

Sabemos que a História é um instrumento essencial do conhecimento humano. Conviria, no entanto, não apagar desse conhecimento o capítulo que mais nos releva hoje na nossa relação com o vizinho espanhol. É o capítulo em que, ao mesmo tempo que Portugal, Espanha acede à democracia e faz connosco o caminho da Europa, nesta nova etapa de arrumação das nacionalidades, que olha em frente e tenta ultrapassar as limitações do passado. Porque este é hoje um mundo onde, para além dos EUA e da China e não existindo Europa, nem Afonso Henriques, nem os Filipes, nem Luís XIV nem sequer Napoleão, teriam tempo de antena.

 

Não esquecendo a História, julgamos não ser possível desvalorizar o ar que há 30 anos se respira nesta Península Ibérica. É impossível não valorizar a ausência de toxicidade que se vive entre lusitanos e espanhóis, agora movidos por interesses que descobriram poder partilhar.

 

Será que a Catalunha é um país oprimido e os catalães um povo que definha sob o jugo de Madrid? Ora a Catalunha tem, desde a democracia, um estatuto de autonomia que lhe dá o direito de decisão sobre quase tudo o que define um país, faltando-lhe um exército próprio e (parte do) exercício da política externa. No quadro da democracia que instituiu profundos direitos autonómicos, a Catalunha retomou o uso da sua língua, tem um governo próprio, um parlamento, a polícia são os "mossos" e, em grande medida, possui o controlo dos impostos. Difícil de detectar na vida da sociedade catalã, os qualificativos atribuíveis a um povo espoliado, onde nas prisões se acumulam presos políticos.

 

Mas não houve recentemente condenações pesadas para os independentistas? Vale a pena relembrar que quem foi julgado e condenado não foram combatentes revolucionários, que, no uso da sua coragem e ignorando o medo da força desigual, agrediram em nome de um ideal a força opressora. Quem foi condenado foram cidadãos eleitos num quadro constitucional, que naturalmente prometeram defender e que sendo funcionários públicos deveriam respeitar a Constituição que lhes deu o poder de agir. Os tribunais, garantes da legalidade democrática, fizeram o seu papel, aplicando as leis que, aliás, todos conheciam.

 

Sabemos bem que nem só de factos vive a alma humana, e a alma catalã foi irresponsavelmente massajada nestas últimas décadas com preconceitos, rancores e ódios para com o vizinho maior, de quem retinha a memória de ocupante, por vezes sangrento. Mas ignoram os catalães, que franceses e alemães concluíram, no final da II Grande Guerra, que só em conjunto poderiam invocar a esperança de ter futuro? Ou preferem os catalães fazer como os crentes xiitas, cuja razão de existir 14 séculos volvidos continua a ser a missão da vingança do verdadeiro sucessor de Maomé?

 

Claro que os portugueses gostam da Catalunha. Claro que os portugueses reconhecem, admiram e amam o importantíssimo património cultural catalão. E claro que os portugueses não esquecem o contributo de modernidade e democracia que a Catalunha deu ao longo da História.

 

Mas o que os portugueses podem também querer é, juntamente com os povos europeus, participar na conquista conjunta do direito ao futuro, procurando garantir para um continente de cuja cultura nos reclamamos um lugar de relevo, que as formulações e as fronteiras do passado não servem.

 

E para os portugueses, a nossa vizinha, democrática, aberta e plural Espanha parece-nos ser a melhor garantia de o podermos conseguir. No respeito por todos, incluindo naturalmente os catalães, bascos, galegos e castelhanos. Entre outros. 

 

Presidente da APFIPP

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico 

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