Teodora Cardoso
Teodora Cardoso 05 de junho de 2020 às 09:00

Previsões em condições de incerteza

A previsão de uma crise financeira pode precipitá-la em vez de contribuir para a evitar. O que não significa que a previsão seja inútil. O problema está em como é usada.

Todos concordamos que, em condições de incerteza, é baixa a probabilidade de acertar na previsão de variáveis macroeconómicas, começando pela variação do PIB. Devemos, no entanto, ser prudentes quanto a concluir daí que as previsões são nesse caso inúteis. Embora, à primeira vista, isso possa parecer evidente, importa levar um pouco mais longe a reflexão. Em primeiro lugar, o que define o limiar de certeza que torna úteis as previsões? Até à emergência do corona vírus, qual era o grau de certeza de que não iríamos enfrentar uma pandemia? Consultando os especialistas na matéria, verificamos que ele era mínimo. Existia, com efeito, informação clara de que um episódio dessa natureza teria lugar num futuro não muito distante e com uma gravidade tanto maior quanto menos preparados estivessem os serviços de saúde para lhe fazer face. O que eliminava a incerteza era apenas o facto de as previsões macroeconómicas ignorarem essa informação.

Analogamente, ao contrário de reiteradas críticas aos economistas por não terem previsto a crise financeira de 2008, não faltavam análises de organismos e de economistas reputados que apontavam com rigor a acumulação dos factores que a iriam originar. Também neste caso, essas previsões foram ignoradas pelos decisores a quem competia tomar as medidas adequadas para prevenir as suas consequências nefastas. Continuava-se, pelo contrário, a publicar previsões que os media abundantemente divulgavam, incidindo a atenção em décimas de diferença entre previsões e sempre ignorando a prudência dos especialistas que sublinhavam os riscos de todas elas.

Na verdade, o homo sapiens sempre soube que não lhe é dado prever o futuro. O que não o impediu de persistentemente o tentar, por via da observação e do seu tratamento por métodos que vão desde a astrologia aos modelos matemáticos. Daí resultaram consequências importantíssimas para a compreensão do universo, partindo sempre do aperfeiçoamento das observações e dos métodos usados para as processar, levando à melhoria das previsões nos diversos domínios. Naqueles em que, certas ou erradas, as previsões não têm qualquer influência sobre o fenómeno em que incidem, os erros devem-se exclusivamente a insuficiências nas observações e no seu método de tratamento, mas em nada alteram a realidade, constituindo antes um incentivo a aprofundar o seu conhecimento.

Não é isso, porém, que acontece na economia, na qual as previsões influenciam as políticas que afectam os resultados, quer directamente, quer pela influência que exercem sobre as expectativas e os comportamentos dos agentes económicos, podendo mesmo desencadear resultados perversos. Por exemplo, a previsão de uma crise financeira pode precipitá-la em vez de contribuir para a evitar. O que não significa que a previsão seja inútil. O problema está em como é usada. Será útil, mesmo indispensável, se servir para os responsáveis tomarem as medidas que ela aconselha e para os que delas são alvo as cumprirem correctamente em vez de as contornar.

Para isso é necessário manter uma atenção constante sobre os factores de risco, endógenos ou exógenos, sempre presentes na economia. As previsões numéricas, com a precisão que, aos leigos, os modelos matemáticos parecem atribuir-lhes, podem ser usadas para iludir os problemas, sobretudo quando o controlo dos riscos exige medidas impopulares. Ficando-se pela projecção do passado recente, os responsáveis podem temporariamente esquivar-se à adopção dessas medidas, ainda que à custa de agravar a situação. Este não é, porém, um “defeito” das previsões nem permite concluir da sua inutilidade. O problema está no modo como são comunicadas e utilizadas pela generalidade dos agentes económicos e, em especial, pelos governos. A estes deve competir usar toda a informação de que dispõem, em grande parte não integrada nos dados estatísticos do passado, para atender aos riscos e definir políticas adequadas. Esta tarefa, sempre importante, torna-se crítica em períodos de transição estrutural e sobretudo em fases de convulsão em que a base fornecida pelos dados macroeconómicos disponíveis se torna mais insuficiente. Mais do que nunca é então necessário informar correctamente os cidadãos para que estes possam tomar as decisões que melhor convêm a cada um, cabendo ao governo zelar pelo interesse colectivo.

Neste caso, as previsões macroeconómicas, muito para além de atribuírem um qualquer valor às variações do PIB, devem gerar cenários alternativos e enfatizar os seus riscos. O menor interesse desse trabalho é o de “acertar” na previsão. O que é preciso é acertar nas medidas que permitam ultrapassar os obstáculos e, ao mesmo tempo, reduzir a vulnerabilidade aos riscos identificados.

A incerteza não é, por isso, aceitável como forma de justificar a não disponibilização de previsões. Pelo contrário, é em situações de grande incerteza que é preciso aprofundar o conhecimento da realidade, com todas as contingências que ela envolve, bem como as medidas que, em diferentes cenários, se tornam necessárias para as enfrentar. Só assim se torna possível aos agentes económicos acompanharem a situação e adoptarem os comportamentos adequados. Afinal, terão sempre de fazê-lo, mas fá-lo-ão tanto melhor quanto mais informados e prevenidos estiverem. Vimos isso na crise sanitária, em que se reconheceu que, sem esse contributo, o sistema de saúde entraria em colapso. É preciso estender essa atitude à economia, um sistema em que se persiste em rejeitá-la, agravando a sua fragilidade ao transferir para o Estado todas as responsabilidades e aos governos toda a discricionariedade.

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