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Nicolau do Vale Pais 20 de Fevereiro de 2015 às 10:16

Quem quer ser Presidente? (esteja quieto, Eng. Guterres)

Convencionou-se chamar à crise e desvalorização políticas generalizadas "a crise da Esquerda"; é um axioma com que concordo em pleno.

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Portugal é hoje um fracasso bem-sucedido: fracasso porque o milagre neo-thatcherista não aconteceu e a recuperação técnica serve de pouco consolo aos despojados desta crise; bem-sucedido porque se manteve uno e pacífico, sem perder o norte ou a credibilidade. Quem é que lhe quer presidir? Quase todos. É um cargo e pêras.


O poder mediático elege os seus fenómenos com uma agenda que, por olhar para nós consumidores, dificilmente trará contributos reais para nós, eleitores. Há uma decência elementar em qualquer processo de debate que está perdida pelo formato da coisa em si. A notícia da ascensão do Podemos ou do Syriza esteve por toda a parte; as hipóteses de que Putin esteja a financiar estes movimentos (bem como a Frente Nacional em França) em lado nenhum. Ninguém citou sequer a investigação do El País, cujo desenlace lentamente se encaminha para que o tal escândalo fiscal, envolvendo o número três do "movimento", mais não seja do que financiamento partidário ilegal. Entretanto, Nicolás Maduro move-se, ameaçando com expropriações os interesses de Espanha naquela zona. Posto isto, urge deixar uma pergunta incómoda mas pertinente: onde é que nos levaram os muito mediáticos movimentos libertários da Primavera Árabe? A lado nenhum. A tirania continua e continuará, alimentando-se como parasita do vazio deixado; porque não há programa político - ou se o há, como no caso obsceno do Podemos - ele é cobarde, iletrado e oculto.


A Direita dá-se bem com tudo isto; porquê? Porque a Direita está onde o seu eleitorado mais tradicional espera que ela esteja, mesmo que algum centrão lhe fuja. O problema está do outro lado; o desencanto e a fragmentação partidária na parte mais à esquerda do espectro, somados ao fenómeno dos independentes e da abstenção, são sintomas disso mesmo. Convencionou-se chamar à crise e desvalorização políticas generalizadas "a crise da Esquerda"; é um axioma com que concordo em pleno. Historicamente, a Esquerda gosta de reclamar para si o exclusivo da mudança.


Não é tudo verdade, nem é tudo mentira - em Portugal, por exemplo, o primeiro Ministro da Cultura, Francisco Lucas Pires, era de Direita. Mas o problema é mais grave do que pelouros e indignações - o problema está lá atrás, no nível de comprometimento fatal com que os Partidos Socialistas claudicaram ao financismo. O erratismo crónico de Costa, a impossível defesa de Sócrates, do Magalhães ou do TGV, são símbolos disso mesmo, da vulgaridade política, da desvalorização da individualidade de pensamento a que cada um tem direito, da transformação da prosperidade genuína em idolatria do poder de compra a qualquer custo.


Que Sócrates e "sus" amigos tenham negócios na tal Venezuela - que hoje, tudo indica, começa a comprar o seu séquito de serventuários na Europa - só pode mesmo surpreender os líricos adeptos da cenoura à frente do nariz. Quanto a Costa, ele taxa, os serviços pioram, a dívida de Lisboa cresce, e Passos sorri e já tem por onde começar ao ataque no primeiro debate.


O mar e a agricultura, a criação e o património, a província e as cidades, o ensino e a economia, a investigação e o valor acrescentado, já deixaram de ser bandeiras políticas para se tornarem questões de Estado. É retrógrado e atávico achar que estes temas ainda estão do lado de "uma ideologia"; não estão; neste Portugal aberto, estão do lado transversal dos desígnios. E a Esquerda, se tivesse de facto líderes como deve ser em vez de insufláveis mediáticos, começaria por aí, exactamente - por celebrar, através do discurso público, a necessidade de transformar ideologia em desígnios. Porquê? Porque só um tolo acha que vai ter folga orçamental para continuar o descalabro da obra pública ou das PPP. Está mal? Está. Mas não é por estar mal que deixa de ser verdade.


A Presidência da República - cargo que Cavaco Silva gosta de reduzir ao Sudoku partidário - é "o" sítio a partir do qual se pode e deve começar já a construir o discurso futuro. No PSD, a coisa é "business as usual", sempre à espera do próximo golpaço que faça justiça ao que dele se diz enquanto Partido. Do lado do PS, a coisa ganha laivos de demência. António Costa já atirou com três candidatos ao ar: nos debates das Primárias, Guterres era o ideal; a seguir já era Sampaio que se deveria recandidatar, e finalmente, o inefável Vitorino. Guterres, ele próprio, faz como qualquer homem inteligente faria - põe-se a léguas de quem ainda não percebeu sequer a importância do assunto. Não vale a pena, Sr. Eng. Esteja quieto. 

 

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