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Refugiados – ameaça ou oportunidade

O drama dos refugiados continua a agravar-se, levando a que um número crescente de cidadãos corra os maiores riscos para tentar encontrar um porto de abrigo onde possa reconstruir a sua vida.

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No entanto, nos países de destino persiste a dúvida sobre o seu impacto e o modelo de integração mais adequado.

 

Os países de destino hesitam entre a adoção de uma atitude solidária e o receio de que o acolhimento de famílias de cultura distinta possa ameaçar o seu modelo de sociedade, penalizar a economia e agravar o desemprego. Alguns advogam mesmo a construção de muros entre países como entre a Hungria e a Sérvia ou os Estados Unidos e o México. Scott Walker, ex-candidato à presidência dos EUA, admitia a necessidade de construção de um muro entre os Estados Unidos e o Canadá, a maior fronteira terrestre do mundo.

 

A riqueza das nações está ligada ao acréscimo do comércio. Como foi demonstrado por David Ricardo, os parceiros comerciais beneficiam por poder especializar-se na oferta de bens e serviços em que são mais eficientes ou menos ineficientes. No entanto, a livre circulação de pessoas enfrenta obstáculos muito maiores. O espaço Schengen de parte da União Europeia, hoje ameaçado, não encontra paralelo em muitas outras zonas de abertura a trocas comerciais. A NAFTA permitiu reduzir barreiras alfandegárias, mas não facilitou a migração de mexicanos para os EUA.

 

No entanto, as migrações foram determinantes para o enriquecimento dos países de acolhimento. O enorme crescimento económico dos EUA deveu-se ao influxo permanente de imigrantes, só interrompido no período da Grande Depressão dos anos 30. Os emigrantes portugueses para França e Alemanha deram um contributo significativo para o crescimento destes países no pós-guerra. E as migrações de camponeses para as cidades chinesas potenciaram a emergência da segunda maior economia do mundo.

 

O importante é assegurar que os imigrantes são integrados de forma harmoniosa, permitindo-lhes uma rápida adaptação e o benefício do seu capital humano. Em 2000, Lazear publicou um influente artigo sobre Língua e Cultura no "Journal of Political Economy" em que analisa o benefício da assimilação para os imigrantes bem como para a sociedade de acolhimento. A rapidez da integração tende a ser tanto maior quanto mais pequena for a comunidade de imigrantes da mesma etnia dado que a aprendizagem da língua local tem um benefício marginal mais elevado do que se uma vasta comunidade da mesma etnia já estiver estabelecida. É por isso que a formação de "guetos" reduz o valor da integração para os imigrantes e da externalidade positiva para o país de acolhimento. O modelo de Lazear assume que os refugiados que abandonaram o seu país em condições de grande perseguição como os judeus vítimas de "progroms" ou os vietnamitas que combateram ao lado dos americanos têm maior incentivo para uma rápida integração na sociedade de acolhimento.

 

Num estudo de 2008, Cheswick analisou os benefícios da aprendizagem de inglês para as comunidades imigrantes nos EUA e identificou três fatores principais: exposição, eficiência e incentivo económico. A exposição pode ser anterior ou posterior à chegada. Os emigrantes originários de antigas colónias inglesas como a Índia ou a Nigéria aprendiam mais rapidamente do que os restantes imigrantes. A oferta de ensino gratuito de inglês logo após a chegada facilitaria a exposição e a aprendizagem. A eficiência depende de fatores como a idade - os mais jovens tendem a aprender uma língua mais facilmente - ou o conhecimento anterior de línguas parecidas com a do país de destino; finalmente, o incentivo económico é muito importante. Um imigrante com oportunidades de integração no mercado de trabalho está mais motivado para aprender o novo idioma.

 

A hospitalidade dos portugueses é proverbial. Embora mais experientes como emigrantes, integrámos os portugueses que regressaram das ex-colónias e recebemos numerosos imigrantes nos auspiciosos anos 1990, muitos de regiões e culturas bem distantes. De um modo geral, a integração tem sido harmoniosa. Quem não se espanta com a velocidade com que ucranianos aprendem o português e com o sucesso escolar dos seus filhos?

 

Se soubermos organizar a sua integração de forma eficiente, os imigrantes podem ajudar a compensar o deficit demográfico que nos tem fustigado nos últimos anos. Essa sim, é uma ameaça real ao nosso futuro.

 

Professor de Finanças da ISCTE Business School e no INDEG-IUL ISCTE Executive Education

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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