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Simpatizantes

É inegável que as primárias do PS deram um contributo para a aproximação das pessoas à pouca política que cá se faz.

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Ao permitirem o envolvimento dos cidadãos que se identificam com os seus princípios na escolha do candidato a primeiro-ministro, os socialistas inauguraram, com sucesso, um modelo que vai ser difícil ignorar. 

 

Não há como desdourar esta iniciativa, de alcance democrático exactamente oposto ao que, no passado recente, constituiu a inovação de fazer participar todos os militantes na eleição do líder. 

 

É certo que chega em tempos difíceis, em que muitos sectores da sociedade portuguesa se sentiam muito mal representados pela oposição disponível, é igualmente certo que a escolha era fácil, mas sabendo que o processo foi absolutamente inovador, organizado em cima do joelho em clima de suspeição mas, ainda assim, resultou na participação de mais simpatizantes do que militantes é inegável constatar que o que mudou foi muito mais do que o PS. Até porque a proposta política do PS, já lá vamos, pouco mudou.

 

Curioso foi constatar que muitos dos comentadores que, no passado recente, tanto verberavam a captura dos partidos pelos aparelhos dos "adjuntos de vereador" e outras clientelas piores, tenha tido tantas dúvidas sobre o processo e o "papel" dos militantes.

 

Não há nada de errado em ser militante de um partido e contribuir com desprendimento e generosidade para o seu quotidiano. Coisa muito diferente, como provou a organização regional do PS em Braga - num fenómeno que só os mais distraídos ignoram estar um pouco por todo o lado -, são as listagens de militantes que não existem, as casas onde "moram" dúzias de eleitores, os que pagam as quotas dos outros, a permanente organização de sindicatos de voto interno, a profissionalização desta actividade...

 

A substituição da democracia representativa como modelo de escolha dos dirigentes partidários pelas eleições directas dos militantes foi, também, a substituição de organizações intermédias chefiadas pelos que se destacam nas respectivas terras para outras chefiadas pelos que se dedicam ao cultivo dos cadernos eleitorais. E, consequentemente, chegámos ao Dr. Seguro. 

 

Ironicamente quem mais beneficiou do roteiro da carne assada foi quem acabou a pôr fruta na mesa. Seguro não perdeu por ter convocado este modelo, perdeu porque tinha de perder, porque não tinha, como diria Sir Appleby, "prime ministerial caliber". Mas, reparem nisto, o homem a quem ninguém, no fim, reconhecia calibre de primeiro-ministro teria sido um candidato com possibilidade de ganhar eleições, eleito em sucessivas maiorias pelos militantes do PS, até ao dia em que Costa quebrou as regras que tinha aceitado e o adversário escolheu suicidar-se devagar. 

 

O argumento, verdadeiro, que a mudança é pouca porque os candidatos se distinguem apenas pela personalidade e não pelas ideias também não apouca o método a menos que os leitores frequentem cafés onde se discute todos os dias o Tratado Orçamental e onde quem fala de bola é escorraçado pelo civismo dos atenienses presentes. 

 

A vida foi fácil para António Costa que só teve de se esconder enquanto o adversário se estendeu. Pois… e depois? Compete agora aos adversários a capacidade de fazer perceber que, por ali, o rei vai nu, que voltou o tempo do sol na eira e chuva no nabal que, normalmente, acaba com o burro nas couves e o FMI a esfolar o povo.

 

O que há de novo desde domingo é mesmo uma legitimidade diferente conquistada num universo eleitoral mais abrangente e descomprometido. É mais do que parece. Espero que contagie. 

 

Advogado

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