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Luis Nazaré 11 de Outubro de 2010 às 12:46

Surpreendam-nos!

Esta Europa não serve. Ou melhor, vai servindo a Alemanha da srª Merkel e um pequeno número de tigres do Leste

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1 Esta Europa não serve. Ou melhor, vai servindo a Alemanha da srª Merkel e um pequeno número de tigres do Leste (a Polónia e a Eslováquia, em especial). Falha de ambição e de coragem, roída pela velhice e pelo pessimismo, vergada à finança em detrimento da economia e totalmente destituída de liderança política, esta Europa não tem condições de se afirmar como o espaço económico mais progressivo do planeta.

O belo desígnio da Estratégia de Lisboa morreu. Seria preciso um grande esforço de renovação institucional e um naipe de protagonistas ao nível dos que criaram e desenvolveram o sonho europeu para que a União pudesse retomar a sua senda ambiciosa de prosperidade e bem-estar. Num futuro próximo, essa missão afigura-se impossível. Nem os estados-membros estão dispostos a caminhar no sentido federalista, com uma progressiva integração dos mecanismos de governação, nem a acomodada Comissão Europeia parece capaz de dinamizar o processo.

A situação difícil que a Europa atravessa deve-se, em boa medida, a essa falta de solidariedade activa entre Estados-membros e à ausência de mecanismos e instituições capazes de agir com eficácia e prontidão perante situações de crise. O comportamento do Banco Central Europeu é disso um exemplo perfeito. Após uma série de incompreensíveis equívocos na gestão das taxas de juro, limita-se agora a assistir impavidamente à absurda valorização do euro face ao dólar, resistindo à injecção de liquidez de que a economia europeia carece. O oposto do que os Estados Unidos vêm fazendo. Prevejo que o preço do euro, a manter-se, nos vai sair caro.

Frequentemente defendi uma harmonização dos regimes tributários no espaço da União Europeia. Talvez não seja este o tempo certo, face aos imperativos de austeridade do presente, mas logo que a tempestade amainasse (possivelmente lá para 2014) deveria ser essa a rota. Pelas mesmas razões, não vejo com especial apreensão a existência de um mecanismo comunitário de "harmonização orçamental", brevemente em discussão e que tanta polémica está já a causar. Se queremos evitar novas crises das finanças públicas, algo deverá ser feito no sentido de as disciplinar preventivamente, nem que isso represente alguma perda de soberania. O que receio, isso sim, é que os futuros membros dessa putativa comissão de análise sejam todos loiros e de olhos azuis.

2 Por cá, mantemo-nos tristemente a discutir táctica política e finanças públicas. Ambas fazem parte da vida, é certo, mas custa ver a economia ficar para trás e o país inteiro na expectativa do que poderão vir a ser os próximos sete meses se o orçamento de Estado não passar na Assembleia da República. Não creio que isso vá acontecer, porque ainda acredito no sentido de responsabilidade dos políticos. Em breve teremos a prova dos nove.

Ficar no regime de duodécimos tem uma vantagem - a complexidade das discussões entre economistas diminui drasticamente, confinados que ficam à análise da degradação do rating nacional e à previsível subida do custo da dívida. Dois indicadores apenas. Caso contrário, há que confiar num orçamento austero nas finanças e ousado na economia.

O Estado, num país como o nosso, tem de ser amigo das empresas. Fiscalidade sã, incentivos certeiros, transparência, desburocratização e infra-estruturas de primeira qualidade. Sim, de primeira qualidade, que de desvantagens históricas e territoriais já temos que cheguem. Lisboa- -Madrid em AV sem hesitações, nem que seja à custa do diferimento da ligação Lisboa-Porto. Se não se tivessem malbaratado milhões na "renovação" da linha do Norte, que não se renovou em coisa alguma, os pendulares seriam mais do que suficientes para assegurar uma ligação rápida.

E o novo aeroporto? Por este andar, qualquer dia vou estar contra, pelos maus motivos. Só quem está muito distraído é que não percebe o enjeu. A crise há-de passar e arrepender-nos-emos amargamente de não termos feito o necessário. Atentemos no que se prepara a aliança BA-Iberia para fazer na América do Sul, na agressividade estratégica de Espanha (sim, mesmo em tempos de crise!) e comparemos com a nossa indecisão. Mais dois anos de atraso e seremos irremediavelmente ultrapassados nas rotas do Atlântico Sul, contentes por mantermos a discussão aberta sobre os remendos da Portela. Afinal, é tão cómodo para os opinion makers terem um aeroporto à distância de uma corrida barata de táxi!


Economista; Professor do ISEG
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