Jorge Marrão
Jorge Marrão 23 de abril de 2018 às 20:22

Um país baralhado

A política não se atreve a pôr na ordem definitivamente as finanças, a justiça, a saúde, as pensões, e a libertação da sociedade do Estado, porque tem inúmeros telhados de vidro.

A FRASE...

 

"A nata da nata, que se vai desnatando todos os dias à velocidade do som."

 

Anselmo Crespo, Diário de Notícias, 23 de Abril de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Os poderes da época áurea de Sócrates, desde banqueiros, ministros até aos empresários e gestores ditos sucedidos, depois espantosamente falidos e pretensamente corruptos, destaparam uma crise de valores e referenciais sociais sem paralelo na sociedade democrática portuguesa.

 

A política faliu a sociedade, os seus valores e aspirações, mas não aceita esta acusação. Em sua substituição, estão a nascer os novos poderes não controlados. A atuação vergonhosa do Ministério Público e dos seus agentes, que confundem a sua função judicial, que deve obedecer as mais elementares leis do Estado de direito, com uma inquisição mediática tendente a uma purificação da alma lusitana para erradicar os "poderosos de outrora", metendo tudo e todos no mesmo saco, cria um vazio que penosamente irá ser preenchido. Os reguladores que não participaram no escrutínio a tempo, agora arvoram-se em poderes perfeitos.

 

A saída poderia ser uma porta aberta a populismos. Estes não vão nascer, porque a política das convicções deu origem à política popular do "status quo", ou seja, um alinhamento de todos os partidos da esquerda à direita para não acicatar os ânimos do povo, perante as reformas de que precisamos, substituindo-a por afetos, compreensão e reversões fingidas para que possamos ter a estabilidade que os credores exigem. A estabilidade do anterior regime custou-nos muito caro: almas pacificadas, mas pobres. A deste irá sair ainda mais caro. Ninguém tem a ousadia de julgar a política pela política. Propalam consensos e pactos de regime que cheiram a manobras dilatórias para perpetuar uma podridão evidente do regime constitucional e institucional.

 

A política não se atreve a pôr na ordem definitivamente as finanças, a justiça, a saúde, as pensões, e a libertação da sociedade do Estado, porque tem inúmeros telhados de vidro. É a fase política do faz de conta que nada se passou, quando tudo se passou. Ao atribuírem essa responsabilidade aos tribunais, estão a cavar uma sepultura, que aliada à colossal dívida, vai fritar a sociedade em lume brando. A igreja de São Domingos está a ser reativada com julgamentos populares, para que tudo fique constitucionalmente, e de facto, na mesma. Uma oportunidade perdida para Portugal.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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