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Maria João Tomás 12 de Julho de 2015 às 20:49

Violência em nome de deus

A violência em nome de deus não é um fenómeno novo, mas é no mínimo desconcertante que esteja a tomar tamanhas proporções em pleno século XXI.

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Quando se descobre que um dos mentores do mais recente ataque jihadista na Tunísia, o imame salafita Hani al-Sibai, vive em Londres, a expensas do Estado, que também lhe paga a casa numa das melhores zonas de Londres, torna-se urgente repensar na estratégia anti-terrorismo e nas medidas que têm de ser urgentemente adotadas. 

 

O fenómeno do jihadismo, que tem no ISIS o seu mais conhecido grupo, é um negócio que gere dois mil milhões de dólares por dia. Tem filiais franchisadas em toda a parte do mundo, e no caso da Tunísia os responsáveis foram os terroristas do Anshar al-Sharia, fundado por Hani al-Sibai. O facto de recrutarem em nome de deus, dá-lhes o sentido de superioridade moral que precisam para convencer os mais incautos a juntarem-se a eles, que vão convencidos por um falso proselitismo, que de islâmico tem apenas o nome. Acresce a esperteza de remunerarem os recrutados, ao que somam cama, comida e um harém à disposição. Mais recentemente, veio a descobrir-se que também fornecem todo o tipo de drogas, o que, tudo junto, convenhamos, é aliciante para quem nada tem e pouco consegue almejar.

 

Apesar de se interessarem sobretudo por países ricos, mas desgovernados, como a Líbia, Iraque e Síria, para depois se apoderar das suas matérias-primas e as vender no mercado negro, tem angariado outros grupos em países igualmente ricos e desgovernados, como a Nigéria ou a Somália. São politicamente úteis em vários cenários de guerra e, por isso, se pensa que possam estar a ser financiados, e até ser cúmplices de várias potências. Na impossibilidade de provar quem o faz na clandestinidade, resta esperar que deixem de ser interessantes para os seus mecenas, e que haja vontade de acabar com eles, porque quanto mais o tempo passa, mais incontroláveis ficam. É possível que os novos acordos e rotas comerciais, bem como a construção de novos gasodutos, arrastem a necessidade de trazer paz para algumas das regiões onde estão instalados, mas a forma como estão a diversificar as suas atividades para outras áreas geográficas, estão a deixar bem claro que não vai ser tarefa fácil.

 

Mas há medidas que podem ser implementadas. Em primeiro lugar é urgente travar o recrutamento. E aqui o trabalho é múltiplo. As autoridades competentes devem punir criminalmente quem o faz, como devem fechar os centros e os locais onde é feito. O que tem acontecido nos países ocidentais é que, ao abrigo da liberdade de expressão, de religião e de associação, é difícil fazê-lo, mas há que compreender que, quem defende matar em nome de deus não está propriamente a professar uma fé, está antes a incitar e a promover a violência. Hani al-Sibai é um destes tristes exemplos que abundam na Europa. Há, pois, que mudar a legislação antes que seja tarde demais.

 

É necessário também que haja um trabalho na comunidade dos verdadeiros crentes, porque é muito mais fácil ouvir quem tem autoridade religiosa. As grandes mudanças vêm de dentro para fora, e há que educar e informar, para evitar novos recrutamentos, mas também denunciá-los às autoridades competentes, porque, afinal, são estes terroristas quem mais está a prejudicar a fé islâmica.

 

Por fim, há que encontrar soluções para os jihadistas europeus que regressam das guerras no Médio Oriente, e que usam a sua identidade e passaporte para circularem livremente. A legislação atual não está adequada a esta realidade, é preciso encontrar novas soluções.

 

A violência em nome de deus não é um fenómeno novo, mas é no mínimo desconcertante que esteja a tomar tamanhas proporções em pleno século XXI.

 

ISCTE-IUL

 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

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