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Edson Athayde - Publicitário e Storyteller 26 de Fevereiro de 2019 às 20:03

Dar tempo ao tempo

A princípio, Olegário irritava-se com o tempo que perdia. Depois acostumou-se, até porque preocupar-se demasiado com o assunto só o iria fazer perder mais tempo.

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Estamos às vésperas de uma coisa que no Brasil chamamos de "feriadão", quando um feriado se junta a um fim de semana e mais a uma ponte e, enfim, o calendário conspira a nosso favor, dando-nos mais tempo para viver e não simplesmente existir.

Tempo: a moeda de todas as moedas, a abstração mais concreta de todas. Tempo é ilusão, tempo é convenção, se tem dúvidas, basta dar tempo ao tempo.

A propósito do tema, lembrei-me de um texto que escrevi há muitos e muitos anos, num tempo em que nem a internet existia, mas que, vez por outra, encontro citado nos sites mais insuspeitos. O texto era mais ou menos assim:

"Olegário passou a vida a perder tempo. Uma vez, quando pequeno, perdeu duas horas na escola e nunca mais as encontrou. E eram horas boas, como só as horas das crianças costumam ser, horas em que poderia comer chocolates sem se preocupar com o peso ou dar beijinhos na primeira namorada.

Olegário perdeu tempo com dois casamentos. As esposas nem eram más pessoas, eram apenas as pessoas erradas. Olegário perdeu tempo na faculdade de engenharia, quando na verdade queria era ser ator ou futebolista.

A princípio, Olegário irritava-se com o tempo que perdia. Depois acostumou-se, até porque preocupar-se demasiado com o assunto só o iria fazer perder mais tempo.

Um dia, um homem bateu na porta do Olegário. Ele atendeu:

- Peço desculpas, senhor Olegário, mas trabalho na secção de perdidos e achados da câmara municipal. Não é habitual fazer esse tipo de visita, mas achei que deveria vir devolver algumas coisas que perdeu. Veja aqui nesse saco. Esses quarenta e cinco minutos não são seus?

- Sim, sim parecem meus. Perdi-os na semana passada, num Uber, num engarrafamento.

- Foi o motorista que nos entregou. Mas há mais de onde vieram esses. O senhor deveria tomar mais cuidado. Às vezes, ponho-me a arrumar a secção e fico triste de ver o tanto de tempo que o senhor perdeu. Sempre me emociono quando vejo os anos em que não pôde conviver com os filhos do seu primeiro casamento.

- Sim, foram anos perdidos. Agora eles já cresceram e não querem perder tempo comigo.

- Bem, fique com o saco e apareça lá na repartição quando quiser apanhar o resto. Passe bem.

Olegário fechou a porta e pôs-se a olhar para dentro do saco. Reconheceu alguns momentos da sua vida que pensava perdidos para sempre. Minutos passados a fazer palavras cruzadas, dias consumidos a reparar danos provocados por decisões erradas, a viver o que os outros disseram que ele tinha que fazer.

Olegário não sabia se ria ou chorava. Olegário não sabia o que fazer com o tempo que recuperara. Foi quando descobriu as tais duas horas que havia perdido na escola quando criança. Tirou-as do saco e percebeu que ainda estavam intactas. Decidiu usá-las.

Por duas horas, Olegário teve outra vez sete anos. Brincou com amigos imaginários, comeu todas as bolachas que havia no armário, rabiscou palhaços na parede da sala. Depois, apanhou uma toalha na casa de banho, amarrou-a ao pescoço e imaginou ser o Super-Homem. Vestido assim, subiu no alpendre da varanda do apartamento, que ficava no décimo andar.

No exato momento em que estava preparado para pular e voar, as suas duas horas infantis acabaram. Olegário voltou à realidade e percebeu o que esteve prestes a fazer. Pensou um pouco e decidiu fazer o que tinha de ser. Sem mais perda de tempo".

 

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