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Edson Athayde 09 de Setembro de 2020 às 10:20

Com a verdade me enganas

Como diria o meu Tio Olavo, a parafrasear o cronista Luís Fernando Veríssimo: “Antigamente, às vezes, a única coisa verdadeira num jornal era a data. Hoje em dia, dependendo do jornal, nem isto.”

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O que uma peça americana dos anos 1930, uma longa realizada por George Cukor em 1948, uma música do Tony Carreira, uma forma de abuso psicológico reconhecia pela medicina, o Donald Trump e o Jair Bolsonaro têm em comum?

“Gaslight” é a resposta.

“Gaslight” é título da peça e da longa e que se tornou, na língua inglesa, a expressão que explica como podemos fazer com que as pessoas duvidem da realidade que têm à sua frente, preferindo acreditar em mentiras que lhes são inventadas.

O filme e a obra de teatro contam a mesma história: interessado em acobertar um assassinato, um homem decide convencer a própria esposa que ela está a enlouquecer. Assim, usa várias artimanhas para fazer com ela ache que está a perder coisas, a ver o que não existe, a lembrar de situações que não aconteceram. Tudo manipulado. Um desses pequenos pormenores envolve a luz de gás que ilumina a casa onde vivem. De vez em quando a casa fica à meia-luz. Mas só ela percebe isto. Segundo o marido, a iluminação está sempre com a mesma intensidade.

A partir de determinado ponto, ela já não crê nos próprios olhos, ouvidos, sentidos em geral. Precisa do ponto de vista do marido, da leitura da realidade que ele apresenta.

Se ela vê uma pedra azul e ele diz que é amarela, a pedra amarela será.

O “gaslight” é uma técnica relativamente comum no que toca a projetos de media que tenham a intenção de interferir na política. E é muito eficaz.

A Fox News, só para citar um exemplo notório, faz isso sem embaraços. Todas as notícias são apresentadas a partir de uma ótica muito própria. Depois de décadas a reverberar uma mesma narrativa, um habitual telespectador do canal não tem mais condições de assistir às notícias de outra emissora. O que as outras mostram soa a pura manipulação.

Os terraplanistas e antivacinas, os negacionistas do Holocausto ou da atual pandemia passaram por processos de “gaslight” e, a partir daí, tornaram-se eles também propagadores das realidades alternativas que vivem.

Claro que acreditam que nós é que estamos “gaseados”. Mas antes que fique você também em dúvida, agarre-se firmemente no senso comum, nos livros de História, na ciência, na lógica.

Há algumas perguntas simples para descobrir se alguém está “gaseado” ou não. São autoritários nas suas opiniões ou dialogantes? Os suportes para os seus pontos de vista são credíveis dentro do método científico ou baseados em revelações feitas no YouTube ou WhatsApp? O que afirmam faz sentido para uma criança de oito anos? Confrontados com uma prova cabal contrária ao que estão a dizer, aceitam-na ou apenas mudam de assunto?

O certo é que vivemos numa sociedade cada vez mais gaseada e, por isso, radicalizada. Onde cegos guiam loucos e loucos guiam cegos.

Para fechar o texto, só falta amarrar o tema com a canção do Tony Carreira. O título da música é “Com a Verdade me Enganas” e a sua letra diz assim: “Quanto mais ela me engana / Mais eu acredito nela / Quanto mais me diz mentiras / Mais eu penso que é verdade / Quanto mais coisas me tira / Mais lhe dou minha amizade”.

Se isto não “gaslight”, eu não sei o que é.

Ou como diria o meu Tio Olavo, a parafrasear o cronista Luís Fernando Veríssimo: “Antigamente, às vezes, a única coisa verdadeira num jornal era a data. Hoje em dia, dependendo do jornal, nem isto.”

 

“Antigamente, às vezes, a única coisa verdadeira num jornal era a data. Hoje em dia, dependendo do jornal, nem isto.”

 

O certo é que vivemos numa sociedade cada vez mais gaseada e, por isso, radicalizada. Onde cegos guiam loucos e loucos guiam cegos.
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