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Edson Athayde 10 de Dezembro de 2019 às 19:25

A gente não quer só comida

Proponho então uma nova meta para o ano que vai começar: promover a arte nas empresas de forma regular. Se é funcionário, levante esta hipótese junto aos seus gestores. Se é líder, abra a cabeça para esta ideia. Acredite que a cultura é algo fundamental para a vida de todos.

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"Temos a arte para não morrer da verdade", escreveu Nietzsche. Já Bernard Shaw afirmou que se "os espelhos são usados para ver o rosto, arte é para ver a alma". Razão tinha Maiakóvski ao dizer que "a arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo".

 

Nos tempos sombrios em que vivemos, se os inimigos da cultura voassem, jamais veríamos o sol. Assim, defender a arte não é apenas uma questão de bom senso e bom gosto, mas também de sobrevivência.

 

Um pouco por todo o mundo, religiosos pregam que a arte deve ser moldada aos seus preceitos, sem espaço para o pensamento crítico ou até mesmo o humor. Populistas de plantão comparam os custos da cultura com os de hospitais, como se para ter uma coisa não pudéssemos ter a outra, uma mentira e uma mistificação.

 

Este ambiente adverso às manifestações artísticas, infelizmente, encontra eco junto à boa parte da sociedade. Há, como sempre houve, um certo ressentimento entre nós, as formigas, e as cigarras.

 

Isto não justifica, mas explica porque a grande maioria das empresas se demita do papel de aproximar os seus colaboradores a uma qualquer forma de arte.

 

Outro dia comentei aqui o facto de o vocabulário empresarial usar muito o léxico da guerra para mobilizar os seus colaboradores. Assim, os discursos ficam plenos de "guerreiros", "batalhas", "vitórias", "armas", "conquistas" e um sem-número de palavras e expressões que poderíamos encontrar em livros medievais.

 

Não é por coincidência que muitas das ações de "team building" passam por jogos de paintball, esforços físicos diversos, divisão dos funcionários em grupos a disputar troféus.

Outro hábito medieval é juntar as pessoas à mesa. Esta trata-se de uma época farta em almoços, lanches, jantares e piqueniques.

 

Nada contra tais atividades, apenas acredito que afogar as equipas em tachos de adrenalina ou de azeite não é a única solução possível para desenvolver o espírito colaborativo numa organização. Não duvido de que funcionem, apenas peço para que se considere de quando em vez outras opções.

 

Há alguns dias, por exemplo, para celebrar o fim de 2019, convidei todos os colaboradores da minha empresa para irmos juntos ao teatro. Já havia feito o mesmo no começo do ano, aproveitando terem estado em cartaz peças que discutiam a essência da vida de forma divertida, porém profunda.

 

Noutra oportunidade, fomos todos juntos ao cinema. Regularmente, trago escritores, atores, músicos para falar sobre os seus percursos e suas obras para toda a equipa.

 

Não creio estar a fazer mais do que a obrigação ao sublinhar para a minha gente que a arte deve ser uma coisa tão próxima de todos quanto o futebol. Pode ser que ninguém fique melhor só por causa disto, mas de certeza ninguém ficará pior.

 

Proponho então uma nova meta para o ano que vai começar: promover a arte nas empresas de forma regular. Se é funcionário, levante esta hipótese junto aos seus gestores. Se é líder, abra a cabeça para esta ideia. Acredite que a cultura é algo fundamental para a vida de todos.

 

Como cantava um grupo de rock brasileiro dos anos 80: "Bebida é água / Comida é pasto / Você tem sede de quê? / Você tem fome de quê? / A gente não quer só comida / A gente quer comida / Diversão e arte / A gente não quer só comida / A gente quer saída / Para qualquer parte."

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar Ortega y Gasset: "Cultura é o sistema de ideias vivas que cada época possui. Melhor: o sistema de ideias das quais o tempo vive." 

Publicitário e Storyteller

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