Edson Athayde
Edson Athayde 14 de janeiro de 2020 às 19:14

A Netflix e a Parábola do Semeador

Temos um Papa que sorri, comenta coisas do quotidiano, defende os pobres, torna-se personagem de filme candidato ao Óscar e até estapeia fãs desagradáveis.

Em 1978, a chegada de um sumo pontífice relativamente jovem, o polaco Karol Wojtyla, aka João Paulo II, ajudou a cunhar a expressão "o Papa é pop".

 

Agora com Francisco, a coisa repete-se e amplia-se. Temos um Papa que sorri, comenta coisas do quotidiano, defende os pobres, torna-se personagem de filme candidato ao Óscar e até estapeia fãs desagradáveis.

 

O Papa de turno é um meme ambulante nesta era das redes sociais. E, outro sinal dos tempos, no streaming, as religiões são fonte de variadas produções. Uma delas, a série "Messias", recém-estreada na plataforma Netflix, destaca-se por suas ambições.

 

O que aconteceria se Jesus chegasse ao mundo de hoje? Esta é a pergunta que perpassa os 10 episódios já disponíveis (e que nos prendem de forma arrebatadora, com ganchos brilhantes e reviravoltas inesperadas).

 

"Messias" é um objeto narrativo ímpar. Começa em plena guerra da Síria, traz-nos um suposto profeta iraniano, muçulmanos do mal e do bem, questões morais, filosóficas e de geopolítica complexas e um cinismo incómodo em relação ao mundo em que vivemos.

 

A cada capítulo somos obrigados a pensar (algo cada vez mais raro). Somos desafiados a acreditar ou não no Messias torto que nos é apresentado. Será Jesus, será um impostor, será outra coisa qualquer?

 

A resposta não é fácil. Somos pastoreados, como ovelhas, a caminho de um lugar que não sabemos ser um precipício ou o reino dos céus.

 

Um dos episódios mais interessantes remete à Parábola do Semeador, aquela que deixou Jesus agastado com os seus discípulos por não terem percebido o seu significado.

 

Na parábola, Jesus fala que a palavra de Deus é como sementes que podem cair em diferentes terrenos (os nossos corações e mentes). As sementes podem morrer em solos áridos; germinar algo que seca e morre à mais pequena dificuldade; ou fazer brotar uma árvore duradoura e produtiva.

 

Nos tempos líquidos do século XXI, em que nada nem ninguém permanece muito tempo, em que o hoje é o contrário de ontem (até porque assim desejamos), acreditar, no sentido de ter fé, é coisa insólita.

 

"Messias" é uma série que merece ser vista, comentada, discutida. O seu provocante epílogo leva-nos a um lugar estranho, embaraçoso, inoportuno.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Não sei se acredito em Deus. Mas espero que Ele acredite em mim."

 

Publicitário e Storyteller

 

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