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Edson Athayde 23 de Junho de 2020 às 19:44

A verdade das mentiras

A nossa obsessão com registos fotográficos e de vídeo tem muito a ver com isso. Queremos reter para não perder. A memória registada traz segurança. Até porque sem memória não temos “eu”, não temos ego.

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Alguns apontamentos do diário de um cronista (a viver sozinho em casa) que desconfinou muito pouco e já está quase a confinar outra vez:

1. Todas as obras de arte são, de uma forma ou de outra, um exercício sobre a memória. Moldamos o barro, alinhamos letras, entoamos sons como forma de pôr para fora o mundo que vimos e juntámos cá dentro.

Concordar com a afirmação acima significa conceder que “arte” e “engodo” são palavras equivalentes. Não existe memória, o que existe são reações químicas. Não há uma caixa de cartão dentro do nosso cérebro a guardar fotos, filmes, músicas, suspiros, abraços, olhares. Há neurónios e pouco mais.

Quando vivenciamos algo, eles, os neurónios, reagem e criam assim um registo, uma espécie de ficheiro virtual. Sempre que lembramos de um evento lembramos na verdade da imagem emocional que retivemos dele. Não é o evento em si, é uma representação para lá de deturpada dele. Da próxima vez que lembrarmos desse evento já só conseguimos ter acesso a cópia da cópia. E assim sucessivamente até que nada mais corresponda minimamente ao que realmente se passou.

A nossa obsessão com registos fotográficos e de vídeo tem muito a ver com isso. Queremos reter para não perder. A memória registada traz segurança. Até porque sem memória não temos “eu”, não temos ego.

A série “I Know This Much is True”, recém-estreada na plataforma HBO, é quase um estudo da tese que acabei de apresentar. Nela vemos o ator Mark Ruffalo em grande forma, num duplo papel, os gémeos Thomas e Dominick.

Thomas é esquizofrénico e vive num mundo desencontrado da realidade e, de certa maneira, congelado na sua infância e na sua adolescência. Já Dominick sofre por ser muito duro com as suas próprias lembranças. Dominick está sempre a revolver o passado, colocando-se sempre numa posição vilanesca. Um livro de memórias do avô de ambos, entretanto, aparece podendo conter as chaves para abrir as portas de uma vida, se não em paz, ao menos, com mais sentido. Será?

“I Know This Much is True” é uma gema, uma pepita de alto quilate dramatúrgico. Ruffalo merece ganhar todos os prémios de interpretação deste ano. E dos próximo cinco também. Não perca.

2. Ainda sobre a memória, acabei de assistir na Amazon Prime uma daquelas longas que toda gente viu no cinema e que passou-me ao lado: “Call Me By Your Name”. Que filme bonito. Que exercício sobre o poder das reminiscências. Apesar de ser narrada num tempo presente, a cinematografia escolhida deixa claro que estamos a ver os acontecimentos sobre o ponto de vista de Élio, um dos protagonistas. O mundo que existe à volta dele é feito apenas das impressões de um jovem de 17 anos. Sabemos que o Élio que vemos no ecrã já não existe, cresceu, mudou, encontrou novos significados para as experiências que viveu no começo dos anos 80 (época em que se passa a história). E é isto que mais comove. Vemos mentiras contadas como se fossem verdades (até porque para Élio verdades elas são). E não é sempre assim também connosco?

Ou como diria o meu Tio Olavo: “Às vezes, a única coisa verdadeira numa memória é a data”.

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