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Edson Athayde 15 de Abril de 2020 às 09:40

A vida é um ponto de vista

Sem governos com instrumentos legais musculados não teríamos a mais pequena chance de sobreviver a uma pandemia. Sem a mão do Estado não haverá economia possível quando a crise sanitária acabar.

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Alguns apontamentos do diário de um cronista (que vive sozinho em casa) em tempos de quarentena:

1) A vida é um ponto de vista. Ou a vista de um ponto. A leitura que fazemos da realidade (tanto de um prisma coletivo quanto de um pessoal) varia muito, varia sempre, é mutante como um vírus. Há um meme a circular pelas redes sociais que mostra uma foto do interior de uma livraria. Nela vemos um aviso: “Atenção, os livros da secção de ficção científica poderão ser encontrados agora junto aos livros de história.” Foi a sensação que tive ao terminar de assistir o filme “Contágio”, de Steven Soderbergh, disponível na plataforma Amazon PrimeVideo. Vi a longa quando lançada em 2011. À época, gostei do ritmo alucinante e do alerta preciso sobre algo que todos sabíamos que iria acontecer, só não sabíamos quando. Dúvida esclarecida. É incrível como o guião é parecido com a nossa realidade. Mas há lá uma personagem que me soou exagerada em 2011 e que agora me pareceu até pouco explorada. Jude Law é um blogueiro com 12 milhões de seguidores que como ele vivem numa realidade paralela e conspirativa. Não creem nas instituições, nas autoridades, na ciência e até mesmo no bom senso. Recusam uma vacina pois preferem um tratamento homeopático para eliminar o vírus. Têm medo de desenvolver doenças como autismo. Conhecemos gente assim, alguns até lideram países. E o problema não é serem autistas, mas sim psicopatas.

 

A leitura que fazemos da realidade varia muito, varia sempre, é mutante como um vírus.



2) “A Casa de Papel” é mais uma obra de ficção que se transformou noutra coisa qualquer à luz da atual epidemia. A quarta temporada acaba de estrear na Netflix. Continua a ser boa diversão, mas grande parte daquilo que a tornou num fenómeno planetário deixou de fazer sentido. Quando a saga começou, vivíamos num mundo onde parecia credível (e até desejável) que um grupo de ladrões com tintas anarquistas pudesse desafiar o sistema e levar a melhor. Hoje sabemos que o corona provou ser uma arma antissistema mais potente do que a luta de grande parte da humanidade durante séculos. Afinal, a roda não poderia parar porque ninguém fazia a mínima ideia do que aconteceria após a paragem. Vamos saber. Por outro lado, descobrimos ser mais dependentes das autoridades do que gostaríamos. Trocámos a liberdade de ir e vir tranquilamente por um sentido maior de proteção da comunidade. E isto não é bom, nem é mau, é o que é. Sem governos com instrumentos legais musculados não teríamos a mais pequena chance de sobreviver a uma pandemia. Sem a mão do Estado não haverá economia possível quando a crise sanitária acabar. A multidão que aparece mascarada de Dalí na “Casa de Papel” soa com o que na verdade é (sempre foi): crianças mimadas.

3) Oiço por acaso uma canção de 1976, imortalizada na voz de Elis Regina. O que era um hino rebelde contra a ditadura militar brasileira soa-me agora como um comentário a tudo isto que estamos a viver e a um alerta. A inércia pode nos levar ao mesmo lugar de onde saímos antes da covid. Seremos e viveremos como sempre? Canta Elis: “Não quero lhe falar, meu grande amor / Das coisas que aprendi nos discos / Quero lhe contar como eu vivi / E tudo o que aconteceu comigo / Viver é melhor que sonhar / E Eu sei que o amor é uma coisa boa / Mas também sei que qualquer canto / É melhor do que a vida de qualquer pessoa / Por isso cuidado meu bem / Há perigo na esquina / Eles venceram e o sinal está fechado pra nós / (...) Minha dor é perceber que apesar/ De termos feito tudo o que fizemos / Ainda somos os mesmos e vivemos / Ainda somos os mesmos e vivemos / Como nossos pais”.

 

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