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Edson Athayde 01 de Abril de 2020 às 21:00

Aos que têm uma carteira no lugar do coração

Em delírio, os Bolsonaros contrariam diariamente todas as recomendações dos cientistas, da OMS, ignoram as tragédias de Itália, de Espanha e cavam uma extensa cova onde irão enterrar milhares de brasileiros.

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Alguns apontamentos do diário de um cronista (que vive sozinho em casa) em tempos de quarentena: 

 

1) Como a dinamite, mal manipulada, a comunicação pode ser perigosa. Como publicitário que sou, às vezes, tenho vergonha da minha atividade. Em fevereiro, uma associação de bares e restaurantes da cidade de Milão lançou a campanha "Milão Não Pára". Estavam preocupados em perder negócio com a realidade de uma quarentena (já decretada em várias localidades da região) a bater à porta. A campanha funcionou, foi muito partilhada, inclusive pelo autarca milanês, Giuseppe Sala. Um mês e milhares de mortos depois, Giuseppe pediu perdão por ter ajudado a propagar o spot. Não li em nenhum lugar as desculpas dos criadores e patrocinadores daquela comunicação tão egoísta. Talvez estejam ocupados a chorar o sofrimento de entes próximos. Talvez tenham descoberto, da pior maneira, o que acontece quando pomos a carteira no lugar do coração. 

 

2) Não há nada que seja tão mau que não possa piorar. Inspirados pela ação feita em Milão, os filhos do Presidente Bolsonaro, que lideram uma coisa chamada "Gabinete do Ódio", um braço informal da Secretaria de Comunicação do governo brasileiro, lançaram esta semana a campanha "O Brasil Não Pode Parar". Explico: como perdeu a liderança das narrativas relacionadas à epidemia, a família Bolsonaro decidiu criar uma própria. Em delírio, os Bolsonaros contrariam diariamente todas as recomendações dos cientistas, da OMS, ignoram as tragédias de Itália, de Espanha e cavam uma extensa cova onde irão enterrar milhares de brasileiros. Conclamam a população a sair das suas casas. Alegam que a crise económica irá matar mais do que o vírus. Uma dicotomia torpe. A economia de todo o mundo já foi para o espaço. Não há mais caminho de volta, esse barco já zarpou. Mas não duvidem, eles são muito apoiados. Cerca de um terço do país continua a acreditar que ignorar a pandemia é a solução, que os jornalistas e a TV Globo são os grandes culpados de todos os males. Acham que morrer de covid-19 é uma questão de opinião. Num momento em que o Brasil está à beira do abismo, os bolsonaristas rezam com fervor para que o seu líder comande um passo em frente. 

 

3) Um pouco por todo o mundo, marcas publicam nas redes sociais versões dos seus logótipos com as letras afastadas. A ideia é ajudar a que todos percebam que o afastamento social é necessário. Tais iniciativas têm recebido aplausos dos publicitários e vaias de boa parte da sociedade, que cobra contribuições efetivas das empresas e não apenas perfumaria. Como gosto de ser positivo, como tento crer no ser humano, classifico tais ações como ingénuas, embora inócuas. Este não é o tempo de brincar aos logos e sim de pôr as mãos na massa.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Os momentos de crise ajudam a nos revelar. Não mudam o caráter de ninguém, apenas expõem o que somos". 

 

Publicitário e Storyteller

 

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