Edson Athayde
Edson Athayde 24 de julho de 2019 às 09:30

As derradeiras noites de luar

Conquistar a Lua tornou-se um negócio turístico que só existe de verdade nas cabeças de visionários empresariais como Branson, Bezzos ou Musk. A Lua como parque temático em alternativa à Disney.

"Poetas, seresteiros, namorados, correi

É chegada a hora de escrever e cantar

Talvez as derradeiras noites de luar"

Estamos em 1973. Lá fora da sala de aula, um calor de 42º faz com que as cigarras cantem a chamar chuva. Sentado na minha carteira, leio com atenção o texto do manual escolar. São as mesmas frases que encabeçam esta crónica.

 

As construções das frases chamam-me a atenção. Gosto do "correi", acho que nunca tinha ouvido o imperativo dessa forma. Tampouco sei o que quererá dizer palavras como "seresteiros" ou "derradeiras". Mas é esse mistério que me atrai.

 

Antes de reclamar sobre a minha falta de vocabulário, alerto: no momento que leio a primeira vez o poema "Lunik 9" sou um rapaz de 7 anos, a viver no interior do Rio de Janeiro.

 

"Lunik 9" foi escrito por Gilberto Gil para dar corpo a uma canção do seu primeiro disco, lançado em 1967, e alertava para os perigos da chegada do homem à Lua (feito que acaba de completar 50 anos).

 

"Um facto só já existe que ninguém pode negar, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, já!

 

E lá se foi o homem conquistar os mundos lá se foi

 

Lá se foi buscando a esperança que aqui já se foi

 

Nos jornais, manchetes, sensação, reportagens, fotos, conclusão:

 

A lua foi alcançada afinal, muito bem, confesso que estou contente também

 

A mim me resta disso tudo uma tristeza só

 

Talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção"

 

Gil temia que a Lua deixasse de ser dos poetas e passasse as mãos dos cientistas, dos homens do poder e dos negócios.

 

Como tenho 7 anos, repito, não sei o que opinar. Embora tenha que escrever um resumo interpretativo do texto para daqui a 30 minutos. Sou uma das primeiras cobaias da recente decisão do Ministério da Educação brasileiro de mudar o nome e currículos das cadeiras de "Português" e "Literatura" para uma nova disciplina chamada "Comunicação e Expressão".

 

Até hoje não sei se isso foi mau ou bom. Só sei que olhei para "Lunik 9" como um boi para um palácio. Sequer conhecia a música, poucos meses antes ainda andava entretido com questões mais pertinentes, por exemplo, se tinha sido o Ivo ou Avô que havia visto a uva.

 

Não fazia ideia que, passado quase meio século, estaria finalmente a dar algum uso prático às questões levantadas por Gil.

 

Não, Gilberto, por agora a sua profecia revela-se errada. A Lua continua onde sempre esteve e do jeito que estava. Vazia, secreta, hermética, intrigante.

 

Para quem viu a alunagem da Apolo 11 em 1969 seria impossível imaginar que a narrativa do homem poderoso e conquistador dos elementos naturais destes e doutros mundos estava prestes a desmoronar.

 

Hoje, sentimo-nos menores que há 50 anos. Mal sabemos lidar com o nosso planeta quem dirá de outros corpos celestes. Não cremos, não vemos, não queremos nem pensar.

 

Para piorar a situação, foi justo o Trump que recolocou o tema na agenda. Logo ele. E ainda temos o Bolsonaro que nomeou o mais famoso (será o único?) astronauta brasileiro para Ministro da Ciência. Um tipo antes vendia travesseiros da NASA na televisão...

 

Conquistar a Lua tornou-se um negócio turístico que só existe de verdade nas cabeças de visionários empresariais como Branson, Bezzos ou Musk. A Lua como parque temático em alternativa à Disney. Mas nem eles falam muito do assunto. Ainda não deve compensar o investimento.

 

Melhor para nós. Melhor para mim ou para aquela minha versão de 1973. Se eu pudesse entrar numa máquina do tempo voltaria só para descansar Gil dos seus temores. E para segredar ao ouvido do pequeno Edson uma coisa que poderia mudar a minha vida para sempre: "Coma menos".

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar um provérbio chinês: "Quando um homem aponta o céu, um tolo olha o dedo, um sábio vê a lua."

 

Publicitário e Storyteller

 

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