Edson Athayde
Edson Athayde 09 de abril de 2019 às 20:15

Autoajude-se a si mesmo

Nunca foi convidado para um talk show? Tranquilo. Faça o seu próprio programa de entrevistas e publique no YouTube. Ainda não fez nada de muito importante a ponto de ser entrevistado na rádio? Sem espigas, faça o seu próprio podcast. As variantes são infinitas.

Há 160 anos, dois livros marcantes foram lançados. O primeiro deles, "A Origem das Espécies", de Charles Darwin, reverbera até hoje, provoca polémicas, é contestado, parodiado, descontextualizado. O outro, foi esquecido enquanto livro, mas o seu título está mais vivo do que nunca.

 

Estou a falar de "Self-Help", de Samuel Smiles. A invenção da expressão "autoajuda" foi involuntária, Smiles queria apenas fazer um líbero sobre as virtudes do trabalho duro e da perseverança em plena era Vitoriana.

 

Atirou no que viu, acertou no que não viu. O seu livro vendeu muito mais do que o de Darwin naquele e nos anos logo a seguir (ainda hoje é editado mas pouca gente sabe da sua importância). Como se fosse um entrecho do filme "Inception", a obra colaborou para implantar na cabeça das pessoas coisas como o poder do autoconhecimento como energia para a realização (seja lá o que isto quer dizer).

 

O site MarketResearch.com diz que a indústria americana de autoajuda valeu US $ 9,9 mil milhões, em 2016. Em 2022, o valor deve aumentar para US $ 13,2 mil milhões. É muito dinheiro. Mas poderia ser mais. Há uma crise na renovação de autores.

 

O anterior pico de mercado aconteceu no tempo dos baby boomers. Com a ascensão dos millennials houve algum declínio seguido de estagnação. Não porque os millennials não gostem do género. Ao contrário, amam. O problema é que não querem ouvir histórias e conselhos em livros escritos por gente com a idade dos pais deles.

 

Isto causou uma deriva, parte do dinheiro deslocou-se para o "autoajudismo" de palco. A coisa funciona assim: líderes de startups explicam aos que desejam ser líderes de startup como se tornarem... líderes de startup. São pessoas da mesma idade e quase o mesmo tempo de experiência profissional a ensinar como alcançar uma meta muito próxima do lugar onde todos já estão.

 

Essa lógica está presente em muitos lados. Assim que se forma, o ex-aluno começa a dar palestras na sua universidade. O estagiário publica posts nas redes sociais a tentar definir o pensamento da indústria onde trabalha (e tem mais audiência que o seu chefe, que ainda pensa que o Linkedin é um site de empregos ou o Facebook um mural com fotos de gatinhos).

 

Nunca foi convidado para um talk show? Tranquilo. Faça o seu próprio programa de entrevistas e publique no YouTube. Ainda não fez nada de muito importante a ponto de ser entrevistado na rádio? Sem espigas, faça o seu próprio podcast. As variantes são infinitas.

 

Não estou a dizer que isto é um problema em si. Talento e liderança não escolhem idade. Há muita gente com qualidade a aproveitar esses novos espaços. Apenas lembro que o excesso de autorreferência, sem muita exigência, pode prejudicar o desenvolvimento pessoal.

 

O próprio "autoajudismo" de palco pode contrabandear uma série de coisas ruins: currículos empolados, apresentações de modelos de empresas perfeitas (que não existem) para plateias que julgam-se infelizes pois não vivem nos paraísos que veem nos powerpoints.

 

Se acha que pode descobrir a fórmula do ouro profissional em livros, posts, vlogs e palestras lamento dizer que não é por aí. A melhor receita ainda se prende a coisas bem antigas: acorde cedo, trabalhe muito, seja humilde. Funcionou comigo, espero que funcione consigo também.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Levei décadas para fazer sucesso da noite para o dia".

 

Publicitário e Storyteller

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