Edson Athayde
Edson Athayde 23 de abril de 2019 às 20:45

Coisas boas a pessoas más

Ser feliz, explica "After Life", é menos uma questão de sorte e mais de empenho. Devemos exercitar a felicidade como aprendemos a andar de bicicleta. Há uma hora que já não percebemos como conseguimos fazer. Mas fazemos.

"O que estamos a fazer aqui?", esta é a pergunta que perpassa todos os seis curtos episódios da série "After Life", da Netflix.

 

A resposta é na maior parte das vezes evasiva, amarga, azeda, cínica (pode continuar a alinhar todos os adjetivos ruins que conhecer).

 

Ricky Gervais, guionista, realizador e ator principal da trama está ainda mais impróprio para consumo do que o normal. A sua personagem, Tony, acaba de ficar viúvo e logo na abertura do primeiro episódio desiste de se matar apenas porque não tem quem alimente a sua cadela.

 

Não há nada de bondoso na atitude. Falta a Tony qualquer sinal de empatia com os seres humanos ao seu redor.

 

Tony é bom a elencar argumentos. Com o passar do tempo, o seu criticismo sai do ecrã, como se fosse um odor maléfico, que começa a impregnar a nossa roupa. Ficamos todos um pouco Tony. E isto não é bom.

 

Mas calma. "After Life" utiliza um recurso simples, porém eficaz. Os dois primeiros atos são dedicados a lembrar-nos de que o mundo é um lugar extremamente mal frequentado. Aqui e ali, aparecem personagens com algo de bem-intencionado, mas parecem deslocadas, tolas, superficiais ou, simplesmente, perdidas.

 

Entretanto, todavia, ficamos à espera de um momento qualquer de esperança. E ele aparece, graças a Deus. Não vou dizer quando (nem esclarecer o que é) para não estragar o visionamento da obra (que recomendo). Mas faço questão de dizer que vale a pena resistir às maldades de Tony.

 

De tudo o que aprendi com a série, ficou-me uma frase importante: "Coisas más acontecem com pessoas boas e coisas boas acontecem com pessoas más."

 

E não é isto mesmo? Quantas e quantas vezes perdemos tempo a tentar encontrar uma lógica qualquer nos desaires de quem só tenta fazer o bem e nos êxitos de quem não vale uma rosca seca.

 

Ao longo da minha vida profissional encontrei um sem-número de pilantras, incompetentes e déspotas que construíram carreiras fenomenais. Claro que também encontrei gente honesta, íntegra, talentosa igualmente bem-sucedida. Apenas demorei décadas a perceber que a relação entre caráter e sucesso é ténue.

 

O que nos leva a mais um grande tema abordado em "After Life": o livre-arbítrio. Não fazemos o bem porque somos bons. É justo o contrário. São as nossas atitudes, tomadas em consciência, que nos definem.

 

Devemos fazer coisas boas porque isso faz bem aos outros e a nós mesmos. E é o que a maioria das pessoas, a maior parte do tempo, faz.

 

Para cada grande vilão que conhecemos, há uma quantidade muito maior de gente de boa índole com quem nos cruzamos. O que deveria ser o suficiente para acreditarmos que a vida vai melhorar.

 

Ser feliz, explica "After Life", é menos uma questão de sorte e mais de empenho. Devemos exercitar a felicidade como aprendemos a andar de bicicleta. Há uma hora que já não percebemos como conseguimos fazer. Mas fazemos.

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar Drummond: "Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade."

 

Publicitário e Storyteller

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