Edson Athayde
Edson Athayde 04 de setembro de 2018 às 22:15

De pantufas no museu incendiado

O museu que acabou de morrer queimado num incêndio no Rio de Janeiro foi o primeiro em que fui na vida. Faz sentido. Era um museu de pobres.

Era assim em 1970, quando por lá andei, e assim continuou até a recente fama mundial. Quem diria que aquele palácio maltratado, localizado num subúrbio carioca teria na morte a glória de estampar o noticiário da CNN ou destaque no site do El País.

 

O último Presidente brasileiro a colocar os pés no Museu Nacional foi Juscelino Kubitschek, cujo mandato terminou em 1961. Façam as contas. Ou melhor, não façam. Contas lembram números e números lembram dinheiro.

 

Era um museu de pobres e, por isso, também ele vivia na penúria: paredes infiltradas, fiações soltas, alas fechadas, portas emperradas e um acervo que juntava alhos com bugalhos, insetos e múmias, esqueletos de dinossauros e pinturas, um verdadeiro samba do crioulo doido (como se dizia no Brasil antes de a expressão se tornar politicamente incorrecta).

 

Achei curiosa a grande atenção que a tragédia deste museu recebeu dos portugueses. A SIC lembrou de um evento similar acontecido há 40 anos em Lisboa, quando ardeu o Museu de História Natural. Também temos as nossas culpas em relegar a cultura para um segundo plano e o hábito de chorar pelo leite derramado.

 

Como o Brasil está em plena campanha eleitoral, há argumentos para todos os gostos (ou falta de gosto) para justificar ou explicar ou acusar, tanto à direita como à esquerda. Filho feio não tem pai. A culpa morre sempre solteira. Os ditos populares são sábios por algum motivo.

 

Ainda no território das palavras: quando um determinado prédio no Brasil é considerado com importância histórica, chama-se o ato legal de o proteger de "tombamento". Assim, "tombar" alguma coisa quereria dizer "proteger". Não tinha como dar certo.

 

Memória rima com história. É mínimo o esforço que tenho de fazer para recordar aquela tarde da minha infância no Museu Nacional. A coisa que mais me impressionou foram as pantufas que me deram a usar. Escorreguei pelos corredores a imaginar os fantasmas da família real a rondar por ali.

 

Se é que é possível, tais fantasmas mais fantasmas ficaram. Como no caso dos bichos empalhados que sucumbiram pela segunda vez; um incêndio num museu projeta sempre a imagem de uma chacina no cemitério, um terramoto no purgatório, cheias no inferno. Trata-se de uma morte redundante, como o pisar numa barata já envenenada pelo inseticida.

 

O prefeito do Rio já sinalizou que tudo irá fazer para recuperar o acervo do museu, nem que seja com réplicas. Sim, ele não sabe o que é um museu. Sim, ele não sabe o que era aquele museu. Não, ele não é o único.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Se os idiotas voassem jamais veríamos o céu."

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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