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Edson Athayde 22 de Abril de 2020 às 19:50

Desigualdade: a palavra que não ousa dizer o nome

Desigualdade, amigos. Desigualdade é a palavra do ano. Deste ano, do ano anterior, da década, do milénio. Oxalá não seja a palavra do futuro pouco radioso que temos pela frente.

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A “palavra do ano” sempre foi, por norma, escolhida ao fim de um ano. Mas, como não há nada de normativo nem normal neste 2020, acho que podemos já falar sobre o tema.

Numa votação popular parece-me claro que haveria uma disputa taco a taco entre “coronavírus”, “pandemia” e “quarentena”. São todas palavras boas (embora más) e mereceriam muitos votos.

Numa segunda linha, apareceriam “teletrabalho” e “família”. Foram duas coisas que descobrimos ser bem diferentes do que imaginávamos.

Para quem pôde participar do exercício, teletrabalhar deixou de ser uma quimera futurística. Como o regresso às empresas será faseado e a situação pandémica será intermitente, o passo seguinte será o do estabelecimento de um sistema em que tanto trabalharemos em casa como no escritório, com menos carros nas ruas e ganhos de produtividade e tempo pessoal.

Já a família, depois de quase dois meses de prisão domiciliar, revelou-se um conceito mais amplo, agridoce, menos utópico, mais carnal. Uma coisa era o convívio às noites e aos fins de semana, outra foi a partilha dos mesmos espaços 24 horas por dia, sete dias por semana. Hábitos, manias, ruídos e odores vários misturaram-se nas casas como se todos vivêssemos em cavernas num regime tribal. Muitas famílias saíram deste Big Brother da vida real fortalecidas. Outras em frangalhos.

Mas, se a mim fosse perguntado, a palavra do ano que escolheria seria outra: “Desigualdade”.

A pandemia revelou o que todos sempre soubemos. Vivemos num mundo desigual. O mesmo evento (no caso, o vírus) ao ser exposto a todo o planeta causou (está a causar) diferentes resultados.

Países com extrema concentração de riqueza como os EUA e o Brasil estão a ter as suas estruturas políticas questionadas. As elites americanas e brasileiras estão a ser chamadas a pagar parte da conta pois o andar de baixo não tem recursos para sobreviver nem mesmo algumas semanas sem trabalhar (há melhor definição para escravidão financeira?)

Aqui na Europa, os países mais ricos e mais bem preparados para entrar e sair de uma tragédia destas vacilam em demonstrar complacência e solidariedade com economias frágeis como a nossa. No grande Titanic europeu, as boias tendem a ser só atiradas aos da primeira classe.

Por termos aceitado viver num mundo desigual, minto, por termos desejado, arduamente trabalhado para criar e manter um mundo desigual, somos parte do problema. A dúvida é se vamos querer ser parte da solução.

Num dos diálogos mais inteligentes da série “Years and Years”, da HBO, uma idosa ralha com os seus descendentes, acusando-os de terem contribuído com a derrocada moral, económica e social do mundo ao não conseguirem abrir mão de comprar calças baratas mesmo sabendo que para isto alguma criança teria sido escravizada para costurar aqueles jeans num país do terceiro mundo.

O nosso egoísmo, e não o corona, trouxe-nos até aqui. Podemos bater palmas aos enfermeiros, mas nos recusamos a pagar o que merecem, pois isto significaria mais impostos. Ficamos contentes em estar bem informados, mas rimos com as bocas arreganhadas ao piratear e mandar PDF com os conteúdos dos jornais. “Outros que paguem”, pensamos.

 

No grande Titanic europeu, as boias tendem a ser só atiradas aos da primeira classe.



Raparigas e rapazes bonitos, bem formados, possivelmente brancos e vindos das classes media e alta, fazem palestras sobre meritocracia e empreendedorismo, como se tivessem tido as mesmas oportunidades dos que nascem sem berço, com as cores “erradas”, nas periferias do mundo.

Desigualdade, amigos. Desigualdade é a palavra do ano. Deste ano, do ano anterior, da década, do milénio. Oxalá não seja a palavra do futuro pouco radioso que temos pela frente.

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar o poeta Jessier Quirino: “Desigualdade social... Um morava na Rua do Meio. O outro no meio da rua.”

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