Edson Athayde
Edson Athayde 14 de maio de 2019 às 19:28

Mais que uma vida, tenha uma biografia

Temos esta sina: queremos que os nossos ídolos não tenham nódoas. Choramos os que morrem jovens, mas, por outro lado, admiramos e sentimos um certo alívio por ficarem congelados nas nossas memórias.

Princípio, meio e fim. Assim nessa ordem. Uma das regras mais sólidas da arte do "storytelling" é a que acabo de expor. Conte uma boa história desde o começo, escreva um meio cheio de pontos de interesse, reserve para o final o clímax: a audiência irá aplaudir.

 

Lógica, linear, consistente, coerente. É como também queremos a vida, embora ela, a vida, teimosa que é, recuse. A vida não é prosa fácil, nem aceita capítulos perfeitos. Finais felizes, então...

 

Estava a pensar nisto a propósito de dois eventos em tudo distintos. O primeiro é o 25.º aniversário da morte de Ayrton Senna. Para um português trata-se de um tema com uma importância relativa, claro. Mas, mesmo assim, relevante.

 

Deve haver um interesse sincero pois a efeméride foi destaque praticamente de todos os jornais e televisões. Seja por ter sido um génio do desporto automóvel, algo que toca os portugueses, naturalmente, ou por sua primeira vitória na Fórmula 1 ter sido no Estoril, Ayrton sempre teve uma atenção especial aqui na terrinha.

 

Porém, Senna é uma daquelas poucas coisas que fazem despertar a brasilidade que há em mim. É um clichê para os brasileiros, admito, mas nunca é demais destacar o quanto de valores positivos Senna representou (e ainda representa) para o Brasil.

 

Porém, o que mais me impressionou foi a data grande e redonda. 25 anos. Como estaria Ayrton hoje se vivo fosse?

 

Possivelmente, agraciado com o dom da vida, ao longo desse tempo, poderia ter cometido pecados, permitido o vicejar de defeitos e até manchado a sua biografia.

 

Senna teria sido menos perfeito, porque quem é vivo é pleno de defeitos. Não seria a unanimidade que é. Seria outro. Seria ele.

 

Temos esta sina: queremos que os nossos ídolos não tenham nódoas. Choramos os que morrem jovens, mas, por outro lado, admiramos e sentimos um certo alívio por ficarem congelados nas nossas memórias.

 

O outro facto que me fez pensar é de ordem pessoal (embora profissional). Pela segunda vez fui escolhido para representar Portugal como júri no Festival de Publicidade de Cannes.

 

Trata-se de uma honra poder servir a indústria do país onde trabalho e vivo. E, como a distância entre a primeira nomeação e a segunda tem um espaço de mais de 20 anos, não tenho como não comemorar o simples facto de estar vivo para a receber.

 

Estar vivo, amigos, é muito importante. Estar vivo e a respirar (de preferência em simultâneo) são os únicos atributos necessários para obtermos tudo o que quisermos.

 

Não estou a dizer que é fácil, nunca é, apenas que sem esses requisitos básicos nada mais acontece. E quantas vezes esquecemos isto.

 

Esclareço: não confundo sucesso com dinheiro. Não misturo satisfação pessoal com posição social. Entendo, percebo, compreendo que cada um tem lá os seus sonhos, planos, desejos.

 

Para uns o sucesso pode ser ter um filho, para outros ser voluntário num bairro de lata, outros ainda, viajar pelo mundo. Quem sou eu para julgar os sentimentos dos outros. Mas já que estou por aqui faço questão de lembrar: se está a ler este texto, parabéns. Mortos não leem jornais. Logo...

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Não se contente em ter uma vida. Tente ter uma biografia."

 

Publicitário e Storyteller

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