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Edson Athayde 02 de Julho de 2019 às 19:48

Mundo que nasce torto morre torto

Sei que não sou o único que está com a impressão de que o planeta está torto. Abrimos os jornais e nada faz muito sentido. A narrativa desta época é caótica, parece que o argumentista está com os copos.

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Trump, Bolsonaro, Boris Johnson, o tipo lá da Coreia do Norte, todos maluquinhos registados em cartório e também líderes de uma nova ordem mundial.

 

Nessas horas recordo-me de um antigo conto meu que falava de um homem que queria endireitar o tudo, o todo: "Gostava, mas não conseguia. E, portanto, endireitava colunas, deixava ereto quem chegava ao seu consultório feito num oito.

 

Por força do ofício, acostumara-se a sentir-se como um palhaço de circo, daqueles que arrancam sorrisos até de quem está cheio de dor. Cada cliente era um número, uma cena, um sistema. Cada coluna um palco, um picadeiro, um teorema.

 

Ele era um endireita dos corpos alheios, só não conseguiu endireitar o próprio destino. Um dia o primeiro presidente do mundo caiu duma escada, durante uma gala, e magoou a espinha. Ficou preso numa cama dum quarto sem janelas, onde o sol não entrava, nenhum pássaro voava e nem uma flor nascia.

 

O presidente só sabia do que acontecia fora do quarto através de um relatório diário lido num tom monocórdico por um mordomo com um sotaque húngaro que, por acaso, era anão. E o presidente, que já havia dado a volta ao planeta a bordo de um balão, contentava-se em dizer nem que sim, nem que não, sem poder levantar-se do seu leito para beijar a mão de uma princesa ou abraçar um amigo do peito.

 

O mordomo anão era uma boa pessoa e gostava do presidente, apesar de ser tratado sempre com extrema desfeita. Certa vez, ao visitar uma tia na Hungria, soube da fama do endireita. Contratou os seus serviços na esperança dele curar o presidente do mundo e com isso acabar com aquele triste absurdo.

 

O endireita vestiu a sua roupa de missa e foi até a casa do presidente tratar da tarefa. Assustou-se com o que viu. No lugar do antigo líder sereno e impávido encontrou um homem pequeno, contorcido e inválido.

 

O endireita passou sete dias e sete noites a tentar endireitar o enfermo. Não comeu, não bebeu, não dormiu. Gritou, blasfemou e até sussurrou algo que pareceu vagamente um puta-que-pariu. Foi quando o presidente finalmente reagiu.

 

Num movimento brusco, levantou-se da cama e deu três pulinhos. Depois rodopiou pelo quarto como se o mordomo anão tivesse um violino e tocasse uma valsa. E, sem pestanejar, deu um salto mortal e fez o pino.

 

O endireita de tão cansado só conseguiu esboçar um sorriso. Caiu para o lado e deu o seu último suspiro, com a certeza de ter feito o certo, o justo, o reto. Endireitara o homem mais poderoso do mundo. E, quem sabe, com isso o futuro de todos. Nem viu quando o presidente, num estabanado movimento, tropeçou no anão, caindo de cara no penico, morrendo afogado no próprio excremento.

 

O mordomo, ao contemplar tal cena, chorou, não sem antes formular a moral desse conto triste e porco: ‘Mundo que nasce torto, morre torto’." 

 

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