Edson Athayde
Edson Athayde 08 de outubro de 2019 às 19:15

Não matem o pianista, não atirem no cantor

Se não gostam do que digo, lembre-se, estou só a trazer uma notícia, não disparem contra mim. Até porque, por via das dúvidas, estou a usar colete a prova de balas e capacete.

Se a letra da canção é má, é vil, é ultrajante, não matem o pianista, não atirem no cantor. Eles não são a mensagem, são os portadores.

 

Desde "Antígona", do grego Sófocles, há cerca de 2.500 anos antes de Cristo, a expressão "não mate o mensageiro" serve para destacar (e tentar corrigir) uma infeliz e ineficaz tradição: os arautos das más notícias devem ser punidos, no limite, com a própria vida.

 

Longe vão esses tempos, mas ainda sofremos do mesmo mal. Confundimos a árvore com a floresta, o meio com a mensagem.

 

Somos mais subtis, claro. Gengis Khan decepava as cabeças dos que traziam notícias incômodas. Não vamos a tanto. Basta-nos ridiculizá-los, difamá-los, reduzi-los unicamente aos seus defeitos, incongruências e contradições.

 

Recentemente vimos isto acontecer com a ativista Greta Thunberg. Mas ela não foi a primeira, nem será a última.

 

Dentro das várias ferramentas da retórica, o argumento "ad hominem" é muito eficaz. Bem tecido, o argumento "ad hominem" envolve os nossos sentidos como um perfume malévolo. Ele propõe atacar o caráter da pessoa na tentativa de assim invalidar os seus argumentos.

 

Hipnotizados por essa falácia, esquecemos a origem e a importância das mensagens e ocupamo-nos em defender ou atacar as pessoas que as proferiram.

 

Vale para Greta, vale para Al Gore ("um americano do Texas, branco e rico a fazer de conta que se importa com a salvação do planeta"), vale para o Sting ("o que um rockstar europeu tem a ver com a Amazónia?"), vale até para mim ("ô brasuca, não tens nada que comentar os assuntos de Portugal, volta lá para a tua terra!").

 

Da mesma forma, o que interessa atacar Hitler por ter sido mau poeta ou viciado em opiáceos? O mal dos ideais que propagou é bastante mais relevante do que essas imperfeições mundanas, certo?

 

Abordo este assunto ainda na ressaca das recentes eleições aqui no burgo. Com um parlamento diversificado, teremos novas pautas de discussão, novos pontos de vista, novos debates sobre questões que só interessam verdadeiramente a nichos (o que não significa que não sejam válidas).

 

Será que a nossa democracia é madura o suficiente para isto?

 

Quando o deputado do Chega! verbalizar propostas xenófobas teremos a paciência devida de as enterrar com argumentos racionais, a mostrar o quanto são abjetas e impertinentes para a imensa maioria da nossa sociedade, em vez de apenas o ridicularizar, dando mais tempo de antena para que se vitimize e assim atrair a simpatia de incautos?

 

Nas redes sociais, somos todos bobos da corte a procurar bombos da festa. E assim, equiparamos determinados palhaços circunstanciais a canalhas políticos, como se uma e outra coisa fosse o mesmo e tivesse o mesmo efeito nas nossas vidas. Não são. Não têm.

 

Não estou a dizer que devemos suspender a comédia, apenas alerto que, como a massa de um bolo, quanto mais batemos num populista mais ele cresce. Vejam os tamanhos de Bolsonaro e de Trump.

 

E assim, volto ao começo. Se não gostam do que digo, lembre-se, estou só a trazer uma notícia, não disparem contra mim. Até porque, por via das dúvidas, estou a usar colete a prova de balas e capacete.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar Miguel Esteves Cardoso: "Os verdadeiros democratas não são aqueles histéricos que exigem isto e reivindicam aquilo, que dizem que precisamos de não sei quê e que vamos todos morrer estúpidos se não fizermos não sei que mais. São os que vivem e deixam viver. São os que respeitam as opiniões, as excentricidades e as manias dos outros, sem ceder à tentação de os desconvencer à força." 

 

Publicitário e Storyteller 
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