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Edson Athayde - Publicitário e Storyteller 11 de Agosto de 2020 às 19:37

O Ano da Marmota

2020 não parece um ano, parece um dia em modo repetição. Desde que a pandemia foi decretada que vamos vivendo 24 horas de cada vez, do jeito que dá, agradecidos por ainda não termos entrado nas estatísticas.

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Fora isto, dia sim, dia não, uma promissora vacina ganha as manchetes só para descobrirmos depois que ainda faltam longos meses ou anos de testes. De manhã, o Trump fala uma qualquer besteira sobre a covid. De tarde, o Bolsonaro vai mais longe e faz a besteira acontecer.

Hoje não despertámos para um novo amanhã, mas sim para um eterno ontem. E vemos as ilusões sobre o bom que seríamos depois de a quarentena se esfumar.

Deve ser por isso que, correndo o risco de ficar monotemático, insisto mais uma vez em falar sobre a “empatia”. Creio que o mundo já estava a passar uma grave crise empática, que foi agravada pela pandemia.

Há quem confunda “empatia” com “misericórdia” ou “compaixão”. Estas duas últimas palavras podem advir da primeira, mas, apesar de bonitas e importantes, dizem outras coisas, significam outros sentimentos.

A empatia é uma coisa mais aberta, mais ampla. A empatia não tem de ser boazinha, de certa maneira, até mesmo amoral. Podemos sentir empatia por vilões, por Judas, Hitler ou Bin Laden. Pela via empática, devemos perceber que eles eram humanos falhos como nós. Por nos sabermos iguais a eles é que temos de lutar para sermos diferentes.

Nem sempre essa luta é fácil. Enquanto pensava sobre isso, tropecei na história de uma artista chamada Maria Abromovic, nascida na ex-Jugoslávia e que dedicou toda a sua vida à arte da performance.

Certa vez, em 1974, tinha Maria apenas 23 anos, corajosamente se dispôs a ficar imóvel durante seis horas numa galeria de arte como uma espécie de tela viva. Ao lado do seu corpo havia uma mesa com diversos objetos: um copo de água, uma rosa, um sapato, uma faca, um martelo, uma pistola com uma bala na câmara e outros mais. Os espectadores da performance poderiam usar os objetos para interagir com Maria (havia uma declaração por escrito onde ela assumia toda e qualquer responsabilidade sobre qualquer dano causado ao seu corpo e à sua vida).

No começo as pessoas foram simpáticas. Depois progressivamente foram-se tornando perversas. Enfiaram os espinhos da rosa na sua barriga, cortaram o seu pescoço com a lâmina e lamberam o seu sangue, puseram a pistola na sua cabeça e ameaçaram premir o gatilho.

Ao fim de seis horas, Maria estava em péssimas condições: as roupas retalhadas, tinha cortes em várias partes do corpo, estava ensanguentada e perplexa. Ainda em transe, caminhou em direção às pessoas. Elas, em vez prestar ajuda, fugiram a correr.

A conclusão de Maria foi a de que somos muito hábeis em contornar as regras sociais que nos tornam humanos. E assim, ao objetificar o outro, deixamos a empatia em suspenso, somos capazes de causar danos ou até mesmo matar outras pessoas sem o mais pequeno arrependimento.

Isso ajuda a explicar porque um país como o Brasil chega aos 100 mil mortos oficiais pela covid com um governo a crescer em popularidade. Pensa o eleitor de Bolsonaro como pensa o Bolsonaro: “Morreu? E daí?”

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar a escritora Edna Frigato: “Antes de abrir a boca, exercite a empatia.”

 

Hoje não despertámos para um novo amanhã, mas sim para um eterno ontem.
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