Edson Athayde
Edson Athayde 22 de outubro de 2019 às 21:15

O homem que viveu três vezes

Somos o que narramos sobre nós mesmos e sobre os outros. Somos também o que eles narram de nós. Em boa verdade, não existimos. Somos linhas de uma história escrita na areia da praia num dia de mar revolto.

Ah, as palavras.... "Enredo" vem de "enredar", colher com rede. Não há rede sem "trama", prima direta da "intriga". Boas histórias são aquelas que têm o enredo bem tramado, uma questão a coser-se em outra e em outra e em outra, como num rio de águas densas, porém cheio de rasos e pedras, pronto a arrastar e a ferir quem nele entrar.

 

Como Lete, um rio da mitologia grega. Quem dele bebesse a água esquecia, ou melhor, esquecia-se. Daí a palavra "letal", pois não há morte pior do que o esquecimento pleno.

 

Em oposição ao rio Lete há Mnemósine, divindade cujo dom é ajudar a "recordar", a recuperar os momentos que compõem uma existência, pois sem memória não há vida.

 

Recém-estreado na plataforma Netflix, "Tell Me Who I Am" é um documentário surpreendente, mas também uma espécie de thriller psicológico.

 

O filme conta-nos a história de dois gémeos. Um deles, Alex, ficou amnésico, aos 18 anos, após um desastre na estrada. Restou-lhe apenas a noção de que tinha um irmão idêntico e o nome deste, Marcus.

 

Desde o seu despertar no hospital, Alex apoiou-se em tudo o que Marcus lhe dizia para recompor as suas memórias (em boa verdade, não eram bem isto, memórias, não passavam de simulacros narrativos, criados a partir de fotos e de histórias contadas pelo irmão).

 

Por amor, Marcus escondeu, omitiu, camuflou terríveis verdades que ensombraram a vida pregressa de ambos. Ao fazer isto, ao usar a mentira como cura, impediu o sofrimento de Alex, ajudou a que ele vivesse melhor do que antes do acidente.

 

Ainda vamos a meio do primeiro ato do filme quando intuímos, como Alex acabará por intuir, que nada do que Marcus havia moldado fazia sentido. O problema é que se para nós esse vislumbre vem em menos de vinte minutos, só aos 32 anos é que Alex descobriu que tudo o que absorvera como memórias infantojuvenis não passava de ficção.

 

Se virmos bem, Alex é o homem que viveu três vezes. Uma vida perdida ao bater com a cabeça no asfalto, uma outra ao acreditar nas efabulações do irmão e ainda mais uma ao ser atropelado pelas verdades escondidas.

 

"Tell Me Who I Am" é como a versão dark da comédia "Yesterday", a tal que mostra um mundo que não se lembra da existência dos Beatles. Este doloroso documentário trata-se de uma obra obrigatória para quem estuda as funções e as consequências do storytelling.

 

Somos o que narramos sobre nós mesmos e sobre os outros. Somos também o que eles narram de nós. Em boa verdade, não existimos. Somos linhas de uma história escrita na areia da praia num dia de mar revolto.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Lembrar é fácil para quem tem memória. Esquecer é difícil para quem tem coração."

 

Publicitário e Storyteller

 

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