Edson Athayde
Edson Athayde 05 de dezembro de 2019 às 21:05

O melhor coach é a vida

Se repararmos bem, há bons ensinamentos de vida, de boas práticas funcionais, em quase todos os lugares. Ou, no mínimo, maus exemplos, que servem para que possamos tirar ilações e procurar os seus contraditórios.

Nada contra quem é coach. Trata-se de uma atividade profissional que pode ser muito útil. Tudo o que leva à reflexão, encaminhe para o bom senso e contribua para o bem-estar psicológico de pessoas e organizações deve ser bem-vindo.

 

Dito isto, há quem terceirize a tarefa de pensar sem antes procurar no seu próprio quotidiano os exemplos necessários para responder aos seus problemas (de trabalho ou pessoais).

 

Se repararmos bem, há bons ensinamentos de vida, de boas práticas funcionais, em quase todos os lugares. Ou, no mínimo, maus exemplos, que servem para que possamos tirar ilações e procurar os seus contraditórios. 

 

Um reflexo disso é o meu Tio Olavo. Obcecado que é por aforismas, frases de efeito, ditos populares e citações ilustres, o velho está sempre a enviar-me bocados de textos meus antigos com frases sublinhadas a vermelho. Ele quer assim recordar-me que tenho compromisso com o que escrevo e, como se eu fosse um Frei Tomás ao contrário, devo fazer aquilo que prego.

 

Seguem alguns dos enxertos enviados pelo meu atencioso tio de frases que escrevi há tempos.

 

"Chique é ser feliz. Elegante é ser honesto. Bonito é ser caridoso. Charmoso é ser grato. O resto é apenas inversão de valores."

 

Em outras palavras: se for ao dicionário, descobrirá que ser chique nada tem a ver com felicidade. Mas nem precisa consultar o pai dos burros, uma visita às revistas cor-de-rosa é o suficiente.

 

Fulaninha é elegante porque tem dinheiro (ou faz questão de parecer ter). Beltranão é bonito porque é podre de bom. Cicranete é charmosa porque é casada com um futebolista, com um político, com um banqueiro, com um participante de reality show ou um ladrão de colarinho branco (as profissões podem ser acumuladas).

 

Ser honesto, caridoso e grato (acrescentaria ser tolerante, cordial, bom cidadão) não costuma dar em capas de revistas. Aliás, vamos ser sinceros (outra característica em desuso), quem disse que ser capa de revista é um valor a ser perseguido? Muita gente, eu sei. Elas são livres para dizer o que quiserem. Nós somos livres para não ouvir. Nem mais.

 

"Você tem que aprender que certas pessoas permanecerão no seu coração, mas não na sua vida."

 

A ideia de que não podemos decidir quem fica ou não nas nossas vidas (ou empresas) é forte. É contra tudo o que queremos, chama-nos de impotentes, delimita o espaço em que aquela criança birrenta que viceja dentro de nós pode atuar.

 

É também um alerta: o outro tem o direito de ir (e nunca mais vir) só porque assim deseja, porque descurtiu-nos, achou que o fizemos foi de mais ou de menos, cansou, partiu para outra, seguiu sua vida (ou carreira) decidido a romper a ligação connosco. O outro até pode continuar a ser motivo de nosso afeto, mas não de convivência.

 

No fim, há o verbo "aprender", diferente de "sentir", "perceber", "admitir". "Aprender" é um termo mais severo. Recorda ordem de pai, conselho de mãe, comando de precetora alemã. "Aprender" é pôr cá para dentro algo alheio à nossa natureza. Como animais de circo temos que aprender coisas que não faríamos em ambiente selvagem. Somos elefantes que precisam de dançar valsa para não levar chicotadas e ganhar alimentos. Somos leões que dão a pata.

 

Agora a bola fica do vosso lado, caro leitor. Encontre ao menos uma frase boba, uma platitude qualquer, e analise as suas palavras. Perceberá que por trás de cada vocábulo há um sem-número de significados. Não chega a ser um trabalho bem feito de coach. Mas dá para quebrar um galho. 

 

Publicitário e Storyteller

 

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